Projeto de Resolução n.º 329/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a abertura de uma Representação em Taiwan
A economia de Taiwan assume, hoje, um papel incontornável no contexto internacional.
Com cerca de 23 milhões de habitantes e um Produto Interno Bruto superior a 800 mil
milhões de dólares, Taiwan é uma das economias mais dinâmicas da Ásia e um dos
principais polos mundiais de inovação tecnológica, nomeadamente nos setores da
microeletrónica, semicondutores, biotecnologia, energias renováveis e inteligência
artificial. A sua relevância estratégica tem vindo a aumentar, à medida que os países
europeus e ocidentais procuram reduzir dependências críticas e diversificar as suas
cadeias de abastecimento.
Este movimento tem sido acompanhado por um crescente envolvimento da União
Europeia com Taiwan, incluindo cooperação ativa em áreas como a transição energética,
inovação digital, mobilidade académica, defesa e promoção dos direitos humanos. No
quadro da Estratégia Europeia para o Indo-Pacífico, diversos Estados-membros
reforçaram os seus laços com Taiwan através da abertura de estruturas permanentes
sob designações funcionais — como “Escritório de Comércio” ou “Escritório Económico
e Cultural” — que promovem os respetivos interesses estratégicos.
Portugal não pode ficar à margem desta reconfiguração económica global. A crescente
procura por novos mercados, novas parcerias tecnológicas e maior segurança
estratégica nas exportações e importações justifica plenamente o reforço da presença
portuguesa na região do Indo-Pacífico. Taiwan, enquanto parceiro altamente
qualificado, competitivo e aberto, oferece um conjunto significativo de oportunidades
para as empresas portuguesas, seja no investimento direto, nas exportações de bens e
serviços ou na cooperação académica e tecnológica.
Existe, além disso, uma forte complementaridade entre a economia portuguesa e a
economia taiwanesa em setores como as energias renováveis, os produtos
agroalimentares, a cerâmica, o turismo inteligente e a inovação tecnológica.
Adicionalmente, a presença crescente de cidadãos portugueses – incluindo
investigadores, empresários e estudantes – em Taiwan acentua a necessidade de
garantir algum grau de apoio institucional, coordenação e representação funcional.
Para além da sua relação direta com Portugal, Taiwan tem vindo a desenvolver, ao longo
das últimas décadas, um diálogo consistente e construtivo com diversos países
lusófonos, apoiando projetos de cooperação técnica, intercâmbio académico e
iniciativas culturais em nações como Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola ou
Moçambique. Este histórico de colaboração com o mundo de língua portuguesa reforça
não apenas a afinidade cultural, mas também o potencial de Taiwan como parceiro
natural da Lusofonia, numa lógica de diplomacia económica e cultural partilhada.
Vários países da União Europeia e da OCDE, como a Alemanha, Reino Unido, França,
Países Baixos, Suécia, Finlândia, Espanha, Chéquia, Lituânia, Áustria, Irlanda, Dinamarca,
Itália, Suíça e Polónia, já dispõem de representações económicas permanentes em
Taiwan, operadas por entidades congéneres à AICEP ou por estruturas de natureza
cultural e académica equivalentes ao Instituto Camões. Estas representações funcionam
com plena normalidade, promovendo os respetivos interesses comerciais, científicos e
culturais, sem implicar qualquer alteração ao posicionamento diplomático tradicional
de reconhecimento da política de “Uma Só China”.
A escolha de uma estrutura portuguesa sob tutela da AICEP (Agência para o
Investimento e Comércio Externo de Portugal) – ou do Instituto Camões (Instituto da
Cooperação e da Língua) – permitiria assegurar a necessária flexibilidade institucional e
o enquadramento funcional mais adequado às áreas prioritárias de cooperação. Uma
representação da AICEP garantiria maior enfoque nas dimensões económica e
tecnológica, enquanto uma representação do Instituto Camões poderia reforçar o
intercâmbio académico, cultural e linguístico entre Portugal e Taiwan.
Importa ainda referir que a atual situação, em que os assuntos relativos a Taiwan
continuam a ser tratados através do Consulado de Portugal em Macau – território sob
jurisdição da República Popular da China – cria constrangimentos evidentes de
segurança e acessibilidade para cidadãos taiwaneses e portugueses. Tal realidade
reforça a necessidade de Portugal dispor de uma representação própria e autónoma em
Taipé, que assegure o contacto direto com as autoridades locais e uma presença visível
do Estado português no terreno.
A abertura de uma Representação portuguesa em Taiwan, sob a égide da AICEP ou do
Instituto Camões, permitiria, assim, estabelecer um canal direto e permanente de
cooperação económica, científica e cultural, alinhado com os objetivos estratégicos da
União Europeia no Indo-Pacífico e com os interesses de Portugal enquanto Estado
aberto, inovador e orientado para o futuro.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
Inicie os procedimentos necessários para a abertura de uma Representação da AICEP
(Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal) – ou do Instituto
Camões (Instituto da Cooperação e da Língua) – em Taiwan, com sede em Taipé, com
o objetivo de promover os interesses de Portugal e reforçar a presença nacional na
região do Indo-Pacífico.
Palácio de São Bento, 10 de outubro de 2025
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Angélique da Teresa
Mariana Leitão
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Teixeira
Mário Amorim Lopes
Miguel Rangel
Rui Rocha
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