Projeto de Resolução N.º 551/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo o restabelecimento da educação para a Segurança, a Defesa
e a Paz no âmbito da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania
Exposição de motivos
O contexto geoestratégico da Europa mudou. E mudou talvez para sempre. A invasão
da Ucrânia pela Federação Russa em 2022, e o subsequente desmembramento da
ordem internacional baseada no direito, estilhaçou por completo o quadro do
relacionamento e de confiança entre a maioria dos países europeus e a Federação Russa.
O que outrora era uma ampla relação de cooperação entre os vários países europeus e
a Rússia, nos mais diversos domínios, mas sobretudo no económico, a partir de fevereiro
de 2022 transformou-se na mais séria ameaça à segurança da Europa desde os já idos
tempos da guerra fria. Desde a segunda guerra mundial que o mundo não assistia a um
conflito desta envergadura em solo europeu.
Durante mais de oito décadas, a Europa e os Estados Unidos da Amé rica usufruíram de
uma cooperação sem paralelo e de uma aliança militar reconhecida como a mais
avançada, eficiente e poderosa do planeta. Em conjunto, estabeleceram uma ordem
internacional assente em regras, garantindo um quadro de estabilidade e de promoção
do progresso global. Agora, a aparente mudança das prioridades na política externa
norte-americana, com uma estratégia mais ampla e concentrada em direção à Ásia,
coloca sobre os aliados europeus uma responsabilidade acrescida pela sua própria
defesa, numa situação que irá necessariamente testar as suas reais capacidades de
concertação e autonomia, com vista a enfrentar aquilo que muitos especialistas veem
já como inevitável dentro de pouco tempo: um conflito aberto com a Federação Russa!1
1 Alemanha alerta que a Rússia entrará em guerra com a NATO até 2029: Os cenários que podem
desencadear o conflito
Assim, e p erante este novo quadro de instabilidade e incerteza geopolítica e
geoestratégica, torna -se imperativo que a Europa, e Portugal em particular,
desenvolvam uma postura de maior preparação e resiliência em matéria de defesa. Esta
preparação não pode limitar -se ao domínio estritamente militar, exigindo antes um
esforço mais amplo de consciencialização da sociedade para as questões de soberania e
segurança. É neste contexto que assume especial relevância a formação das gerações
mais jovens, às quais caberá, num futuro que se afigura incerto, a responsabilidade de
assegurar a continuidade e a defesa da independência nacional.
Face a este novo contexto, vários Estados europeus 2 têm vindo a adotar medidas
concretas de reforço das suas capacidades de defesa e de pre paração das suas
populações. A Alemanha, que em 2011 suspendeu o serviço militar obrigatório, aprovou
recentemente legislação que prevê a submissão de todos os jovens de 18 anos a testes
de aptidão militar a partir de 20283, podendo evoluir para um modelo de recrutamento
obrigatório caso a situação de segurança o exija.
A Lituânia reintroduziu o serviço militar obrigatório em 2015, convocando anualmente
milhares de jovens para treino militar. A Letónia seguiu o mesmo caminho em 2023. A
Suécia, que serviu d e inspiração ao modelo alemão, restabeleceu o recrutamento em
2017. A França, por sua vez, tem apostado fortemente no reforço das suas forças de
reserva, permitindo que cidadãos entre os 17 e os 72 anos integrem esta componente.
Na Polónia, o objetivo é alcançar 300 mil soldados profissionais e 150 mil reservistas. No
total, são já nove os Estados-Membros da União Europeia com alguma forma de serviço
militar obrigatório, e países como a Itália têm igualmente discutido o regresso a este
modelo.
Em Portugal, e ao contrário do que vai sucedendo noutros Estados europeus, que têm
vindo a reforçar a consciência de defesa junto das suas populações, verificou -se um
2 A Europa prepara-se para a guerra com a Rússia e chama os cidadãos para servir...mesmo em part-
time
3 Fortalecer o exército. Alemanha quer submeter jovens nacionais de 18 anos a teste de aptidão militar
movimento em sentido oposto. Com a publicação, em agosto de 2025, da nova
Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, a componente de segurança e defesa
foi retirada do referencial da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Esta opção
mereceu crítica pública do próprio Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas4,
que a qualificou como "um retrocesso ou uma distração", sublinhando a importância de
os jovens portugueses manterem uma ligação às questões de soberania e segurança
nacional.
Num contexto geopolítico de crescente incerteza, em que se exige dos cidadãos uma
maior consciência dos desa fios que a Europa enfrenta, afigura -se imperativo corrigir
esta lacuna, reintegrando a componente de segurança e defesa no currículo escolar.
Assim, pelo exposto e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentalmente
aplicáveis, os Deputados do Grup o Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo
que:
1. Proceda à revisão da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, aprovada
pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 127/2025, de 29 de agosto, no sentido
de reintegrar a componente de Segurança, Defesa e Paz como dimensão obrigatória
da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento;
2. Assegure a articulação entre o Ministério da Educação, Ciência e Inovação e o
Instituto da Defesa Nacional para a implementação e atualização do Referencial de
Educação para a Segurança, a Defesa e a Paz em todos os ciclos de ensino;
3. Promova a formação contínua de docentes nas matérias de segurança e Defesa
Nacional, em colaboração com o Instituto da Defesa Nacional.
Palácio de São Bento, 4 de fevereiro de 2026
Os Deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA,
4 CEMGFA aponta eliminação da defesa nas aulas de Cidadania: “Terá sido um retrocesso ou uma
distracção”
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