Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 1102/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a adoção de medidas extraordinárias de mitigação do aumento do custo de vida
Portugal atravessa uma crise prolongada do custo de vida que corrói o rendimento disponível das famílias e que se manifesta, de forma simultânea, nos três encargos que mais pesam no orçamento doméstico: a habitação, a alimentação e a energia. Os dados oficiais não deixam margem para dúvidas quanto à dimensão do problema, nem à sua persistência.
Comecemos pela habitação, que é hoje o principal fator de empobrecimento das famílias portuguesas. Segundo o Índice de Preços da Habitação do Instituto Nacional de Estatística, os preços das casas aumentaram 17,6% em 2025, mais 8,5 pontos percentuais do que em 2024, no que constitui um novo máximo histórico e a aceleração mais acentuada de toda a série. No 4.º trimestre de 2025, a variação homóloga atingiu 18,9%.
No 1.º trimestre de 2026, o índice registou ainda uma subida homóloga de 17,8%, com as casas existentes a encarecerem 19,7% e as novas 12,6%. Em 2025 foram transacionadas 169.812 habitações, num total de 41,2 mil milhões de euros, o que representa aumentos de 8,6% em número e de 21,7% em valor face a 2024. O preço mediano dos alojamentos familiares transacionados situou-se nos 2 076 euros por metro quadrado, mas em Lisboa esse valor ascende a 4 691 euros por metro quadrado. Vendem-se cada vez menos casas, mas cada casa custa muito mais: é o retrato de um mercado que expulsa quem trabalha.
O mercado de arrendamento espelha a mesma asfixia. De acordo com as Estatísticas de Rendas da Habitação do INE, a renda mediana dos novos contratos cresceu 10,0% em termos homólogos, atingindo 8,22 euros por metro quadrado a nível nacional.
Na Grande Lisboa, a renda mediana chega aos 13,16 euros por metro quadrado, na Península de Setúbal aos 10,24 euros e na Área Metropolitana do Porto aos 9,12 euros. No município de Lisboa, a renda mediana de novos contratos atinge os 16,00 euros por metro quadrado.
A estes valores acresce, para os contratos já existentes, o coeficiente de atualização anual fixado em 1,0224 para 2026, que autoriza um aumento até 2,24%. Para uma família que já dedica metade do rendimento à habitação, cada ponto percentual adicional representa a escolha entre pagar a casa ou pagar as restantes despesas essenciais.
A esta pressão estrutural soma-se uma crise inflacionária reacendida pelos combustíveis e pela energia. Em maio de 2026, a taxa de inflação homóloga, medida pelo Índice de Preços no Consumidor, fixou-se em 3,3%, o valor mais elevado desde setembro de 2023.
O motor desta subida é inequívoco: o índice dos produtos energéticos disparou para 13,2% em maio, mais 1,5 pontos percentuais do que no mês anterior. A causa imediata é a guerra que os EUA e Israel decidiram conduzir contra o Irão, que projetou o barril de Brent de cerca de 72 dólares antes do conflito para valores superiores a 110 dólares no pico da escalada.
O impacto nas bombas de gasolina foi imediato e severo. Entre 8 de março e meados de junho de 2026, o litro de gasolina 95 aumentou cerca de 20 cêntimos e o gasóleo simples subiu aproximadamente 44 cêntimos, segundo a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos.
Em meados de junho de 2026, a gasolina 95 simples custava em média 1,919 euros por litro e o gasóleo 1,857 euros por litro, valores que, mesmo após o recente alívio decorrente da reabertura do Estreito de Ormuz, permanecem acima dos praticados antes da guerra (1,705 euros na gasolina e 1,635 euros no gasóleo, a 6 de março de 2026). Recorde-se que, em cada litro de gasolina, cerca de 49,3% do preço final corresponde a impostos, e no gasóleo essa carga fiscal pesa 42,0%. O Estado dispõe, por isso, de ampla margem fiscal para aliviar de imediato o consumidor.
Outros Estados-membros já mobilizaram essa margem. Espanha reduziu temporariamente o IVA sobre a energia, incluindo os combustíveis, de 21% para 10%, e a Polónia adotou um modelo que combina redução fiscal com a fixação administrativa de uma margem máxima de comercialização no retalho, garantindo que a poupança fiscal chega efetivamente ao consumidor e não é capturada pela cadeia de distribuição. São exemplos de que é possível agir, e de que a inação portuguesa é uma escolha, não uma fatalidade.
A alimentação completa o triângulo do empobrecimento. Em maio de 2026, os produtos alimentares não transformados registaram uma variação homóloga de 5,7%, depois de terem atingido 7,5% em abril. A escalada dos custos energéticos e de transporte propaga-se diretamente ao cabaz alimentar, agravando o esforço das famílias precisamente nos bens de que ninguém pode prescindir. Os produtos alimentares e bebidas não alcoólicas representam cerca de 21% do cabaz de consumo das famílias, o maior peso de todas as categorias do IPC, o que significa que cada subida de preços neste capítulo é sentida de forma imediata e transversal por toda a população, mas com particular violência sobre os rendimentos mais baixos.
A aplicação de uma taxa zero de IVA a um cabaz de bens alimentares essenciais foi já adotada em Portugal entre 2023 e 2024, com resultados mensuráveis na contenção dos preços, e deve ser retomada, acompanhada de acordos com produtores e distribuidores que garantam a repercussão efetiva da medida no preço final.
Enquanto as famílias suportam esta sobrecarga, os lucros concentram-se. Em 2025, a Galp obteve um resultado líquido ajustado recorde de 1154 milhões de euros, o maior de sempre, um aumento de 20% face ao ano anterior. No mesmo ano, a EDP fechou as contas com um resultado líquido de 1.150 milhões de euros, mais 44% do que em 2024. Em conjunto com o BCP, estas três empresas concentraram mais de 60% de toda a rentabilidade das cotadas do PSI.
Quando o preço da energia que recai sobre as famílias atinge máximos, e quando os resultados das empresas do setor energético atingem igualmente máximos, é justo que uma parte desses lucros excecionais seja mobilizada para proteger quem mais sofre com a crise.
O Governo tem respondido a esta emergência com gestos avulsos e insuficientes. As medidas adotadas, fragmentadas e tímidas, não interrompem a trajetória de empobrecimento. É necessário um pacote coerente, centrado nos bens essenciais, capaz de aliviar de imediato o orçamento das famílias sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas. É esse o sentido das recomendações seguintes.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo que:
Aplique uma taxa zero de IVA a um cabaz de bens alimentares essenciais e institua um mecanismo de regulação dos respetivos preços, acompanhado de um acordo com produtores e distribuidores que garanta a efetiva repercussão da medida no preço final ao consumidor e impeça a apropriação do benefício fiscal pela cadeia de distribuição, cometendo à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica a fiscalização do cumprimento desta medida;
Reduza temporariamente, para a taxa intermédia, o IVA aplicável aos combustíveis rodoviários, à semelhança das medidas adotadas em Espanha e na Polónia, mitigando de imediato o impacto do aumento dos preços sobre o rendimento das famílias;
Institua um mecanismo de regulação e fixação das margens máximas de comercialização nos combustíveis, e dote a Autoridade da Concorrência e a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos dos meios necessários à monitorização e divulgação públicas dos preços e das margens praticadas, garantindo que a redução fiscal chega efetivamente ao consumidor;
Crie uma contribuição extraordinária sobre os lucros extraordinários das empresas dos setores energético, petrolífero, financeiro e da distribuição alimentar, afetando a respetiva receita ao financiamento das medidas de mitigação do aumento do custo de vida previstas na presente resolução.
Assembleia da República, 26 de junho de 2026.
O Deputado do Bloco de Esquerda,
Fabian Figueiredo
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Documento integral
Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 1102/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a adoção de medidas extraordinárias de mitigação do aumento do custo de vida
Portugal atravessa uma crise prolongada do custo de vida que corrói o rendimento disponível das famílias e que se manifesta, de forma simultânea, nos três encargos que mais pesam no orçamento doméstico: a habitação, a alimentação e a energia. Os dados oficiais não deixam margem para dúvidas quanto à dimensão do problema, nem à sua persistência.
Comecemos pela habitação, que é hoje o principal fator de empobrecimento das famílias portuguesas. Segundo o Índice de Preços da Habitação do Instituto Nacional de Estatística, os preços das casas aumentaram 17,6% em 2025, mais 8,5 pontos percentuais do que em 2024, no que constitui um novo máximo histórico e a aceleração mais acentuada de toda a série. No 4.º trimestre de 2025, a variação homóloga atingiu 18,9%.
No 1.º trimestre de 2026, o índice registou ainda uma subida homóloga de 17,8%, com as casas existentes a encarecerem 19,7% e as novas 12,6%. Em 2025 foram transacionadas 169.812 habitações, num total de 41,2 mil milhões de euros, o que representa aumentos de 8,6% em número e de 21,7% em valor face a 2024. O preço mediano dos alojamentos familiares transacionados situou-se nos 2 076 euros por metro quadrado, mas em Lisboa esse valor ascende a 4 691 euros por metro quadrado. Vendem-se cada vez menos casas, mas cada casa custa muito mais: é o retrato de um mercado que expulsa quem trabalha.
O mercado de arrendamento espelha a mesma asfixia. De acordo com as Estatísticas de Rendas da Habitação do INE, a renda mediana dos novos contratos cresceu 10,0% em termos homólogos, atingindo 8,22 euros por metro quadrado a nível nacional.
Na Grande Lisboa, a renda mediana chega aos 13,16 euros por metro quadrado, na Península de Setúbal aos 10,24 euros e na Área Metropolitana do Porto aos 9,12 euros. No município de Lisboa, a renda mediana de novos contratos atinge os 16,00 euros por metro quadrado.
A estes valores acresce, para os contratos já existentes, o coeficiente de atualização anual fixado em 1,0224 para 2026, que autoriza um aumento até 2,24%. Para uma família que já dedica metade do rendimento à habitação, cada ponto percentual adicional representa a escolha entre pagar a casa ou pagar as restantes despesas essenciais.
A esta pressão estrutural soma-se uma crise inflacionária reacendida pelos combustíveis e pela energia. Em maio de 2026, a taxa de inflação homóloga, medida pelo Índice de Preços no Consumidor, fixou-se em 3,3%, o valor mais elevado desde setembro de 2023.
O motor desta subida é inequívoco: o índice dos produtos energéticos disparou para 13,2% em maio, mais 1,5 pontos percentuais do que no mês anterior. A causa imediata é a guerra que os EUA e Israel decidiram conduzir contra o Irão, que projetou o barril de Brent de cerca de 72 dólares antes do conflito para valores superiores a 110 dólares no pico da escalada.
O impacto nas bombas de gasolina foi imediato e severo. Entre 8 de março e meados de junho de 2026, o litro de gasolina 95 aumentou cerca de 20 cêntimos e o gasóleo simples subiu aproximadamente 44 cêntimos, segundo a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos.
Em meados de junho de 2026, a gasolina 95 simples custava em média 1,919 euros por litro e o gasóleo 1,857 euros por litro, valores que, mesmo após o recente alívio decorrente da reabertura do Estreito de Ormuz, permanecem acima dos praticados antes da guerra (1,705 euros na gasolina e 1,635 euros no gasóleo, a 6 de março de 2026). Recorde-se que, em cada litro de gasolina, cerca de 49,3% do preço final corresponde a impostos, e no gasóleo essa carga fiscal pesa 42,0%. O Estado dispõe, por isso, de ampla margem fiscal para aliviar de imediato o consumidor.
Outros Estados-membros já mobilizaram essa margem. Espanha reduziu temporariamente o IVA sobre a energia, incluindo os combustíveis, de 21% para 10%, e a Polónia adotou um modelo que combina redução fiscal com a fixação administrativa de uma margem máxima de comercialização no retalho, garantindo que a poupança fiscal chega efetivamente ao consumidor e não é capturada pela cadeia de distribuição. São exemplos de que é possível agir, e de que a inação portuguesa é uma escolha, não uma fatalidade.
A alimentação completa o triângulo do empobrecimento. Em maio de 2026, os produtos alimentares não transformados registaram uma variação homóloga de 5,7%, depois de terem atingido 7,5% em abril. A escalada dos custos energéticos e de transporte propaga-se diretamente ao cabaz alimentar, agravando o esforço das famílias precisamente nos bens de que ninguém pode prescindir. Os produtos alimentares e bebidas não alcoólicas representam cerca de 21% do cabaz de consumo das famílias, o maior peso de todas as categorias do IPC, o que significa que cada subida de preços neste capítulo é sentida de forma imediata e transversal por toda a população, mas com particular violência sobre os rendimentos mais baixos.
A aplicação de uma taxa zero de IVA a um cabaz de bens alimentares essenciais foi já adotada em Portugal entre 2023 e 2024, com resultados mensuráveis na contenção dos preços, e deve ser retomada, acompanhada de acordos com produtores e distribuidores que garantam a repercussão efetiva da medida no preço final.
Enquanto as famílias suportam esta sobrecarga, os lucros concentram-se. Em 2025, a Galp obteve um resultado líquido ajustado recorde de 1154 milhões de euros, o maior de sempre, um aumento de 20% face ao ano anterior. No mesmo ano, a EDP fechou as contas com um resultado líquido de 1.150 milhões de euros, mais 44% do que em 2024. Em conjunto com o BCP, estas três empresas concentraram mais de 60% de toda a rentabilidade das cotadas do PSI.
Quando o preço da energia que recai sobre as famílias atinge máximos, e quando os resultados das empresas do setor energético atingem igualmente máximos, é justo que uma parte desses lucros excecionais seja mobilizada para proteger quem mais sofre com a crise.
O Governo tem respondido a esta emergência com gestos avulsos e insuficientes. As medidas adotadas, fragmentadas e tímidas, não interrompem a trajetória de empobrecimento. É necessário um pacote coerente, centrado nos bens essenciais, capaz de aliviar de imediato o orçamento das famílias sem comprometer a sustentabilidade das contas públicas. É esse o sentido das recomendações seguintes.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao Governo que:
Aplique uma taxa zero de IVA a um cabaz de bens alimentares essenciais e institua um mecanismo de regulação dos respetivos preços, acompanhado de um acordo com produtores e distribuidores que garanta a efetiva repercussão da medida no preço final ao consumidor e impeça a apropriação do benefício fiscal pela cadeia de distribuição, cometendo à Autoridade de Segurança Alimentar e Económica a fiscalização do cumprimento desta medida;
Reduza temporariamente, para a taxa intermédia, o IVA aplicável aos combustíveis rodoviários, à semelhança das medidas adotadas em Espanha e na Polónia, mitigando de imediato o impacto do aumento dos preços sobre o rendimento das famílias;
Institua um mecanismo de regulação e fixação das margens máximas de comercialização nos combustíveis, e dote a Autoridade da Concorrência e a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos dos meios necessários à monitorização e divulgação públicas dos preços e das margens praticadas, garantindo que a redução fiscal chega efetivamente ao consumidor;
Crie uma contribuição extraordinária sobre os lucros extraordinários das empresas dos setores energético, petrolífero, financeiro e da distribuição alimentar, afetando a respetiva receita ao financiamento das medidas de mitigação do aumento do custo de vida previstas na presente resolução.
Assembleia da República, 26 de junho de 2026.
O Deputado do Bloco de Esquerda,
Fabian Figueiredo
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Votação na generalidade — DAR I série — 61-61 - 03/07/2026
3 DE JULHO DE 2026
Vamos votar, na generalidade, o Projeto de Resolução n.º 1102/XVII/1.ª (BE) — Recomenda ao Governo a
adoção de medidas extraordinárias de mitigação do aumento do custo de vida.
Submetido à votação, foi rejeitado, com os votos contra do PSD, da IL e do CDS-PP, os votos a favor do PS,
do L, do PCP, do BE, do PAN e do JPP e a abstenção do CH.
Por fim, vamos votar, na generalidade, o Projeto de Resolução n.º 1104/XVII/1.ª (L) — Recomenda ao
Governo a atualização e indexação do cartão social eletrónico Mais Pessoas.
Submetido à votação, foi rejeitado, com os votos contra do PSD, do CH e do CDS-PP, os votos a favor da
IL, do L, do PCP, do BE, do PAN e do JPP e a abstenção do PS.
Srs. Deputados, chamava a atenção para, não obstante haver jogo de futebol, o facto de, amanhã, os nossos
trabalhos começarem às 9 horas. A ordem do dia está devidamente publicitada nas plataformas digitais, e lembro
que teremos a eleição para a Provedoria de Justiça.
Até amanhã e boa sorte para Portugal, mais logo.
Eram 17 horas e 51 minutos.
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Declaração de voto enviada à Mesa para publicação
Relativa ao Projeto de Lei n.º 513/XVII/1.ª:
O Livre partilha a preocupação de fundo que motivou esta iniciativa, uma vez que o preço do cabaz alimentar
essencial continua a pesar demasiado na vida das famílias, sobretudo das mais vulneráveis, e os resultados
elevados da grande distribuição justificam maior escrutínio público sobre a formação dos preços, as margens
praticadas e a distribuição do valor ao longo da cadeia alimentar. Não acompanhamos, porém, o instrumento
proposto, porque a fixação de preços máximos para uma lista alargada de produtos pode gerar efeitos contrários
aos pretendidos, reduzindo a disponibilidade ou variedade de alguns bens, deslocando aumentos para produtos
fora do cabaz e aumentando a pressão sobre agricultores, pescadores e pequenos fornecedores, que têm menor
poder negocial face à grande distribuição. Acresce que uma medida deste tipo beneficia todos os consumidores
por igual, independentemente do rendimento, sendo por isso menos eficaz do que apoios diretos às famílias
mais vulneráveis, e exigiria uma capacidade permanente de cálculo e fiscalização de preços, produto a produto,
que tornaria a sua aplicação muito complexa. O controlo de preços pode justificar-se em situações excecionais,
mas o mercado alimentar exige sobretudo transparência de margens, fiscalização de práticas abusivas e apoio
direto a quem mais precisa, razão pela qual o Livre se absteve, defendendo antes o reforço do cartão social
eletrónico Mais Pessoas e o combate à reduflação.
———
Presenças e faltas dos Deputados à reunião plenária.
A DIVISÃO DE REDAÇÃO.
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Apreciação — DAR I série — 4-58 - 03/07/2026
I SÉRIE — NÚMERO 110
O Sr. João Torres (PS): — Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados: O custo de vida continua a ser uma das
maiores, se não a maior preocupação das portuguesas e dos portugueses.
Apesar das notícias mais recentes sobre o conflito no Médio Oriente poderem sugerir o contrário, a verdade
é que os efeitos económicos continuam bem presentes e continuarão a fazer-se sentir, durante os próximos
meses. A economia não muda de um dia para o outro e os preços não regressam, por magia, aos níveis
anteriores.
Entretanto, são as famílias que continuam a suportar o peso desta dura realidade.
O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS):⎯ Muito bem!
O Sr. João Torres (PS): — Há cada vez mais portugueses obrigados a fazer contas impossíveis, no final do
mês, a escolher entre pagar a casa ou outra despesa essencial, entre abastecer o automóvel ou encher o
frigorífico, entre adiar um projeto de vida ou abdicar de uma necessidade básica.
O Sr. Eurico Brilhante Dias (PS): — Muito bem!
O Sr. João Torres (PS): — Era precisamente nestes momentos que se esperava e que precisávamos de um
Governo presente, de um Governo que infelizmente não temos, um Governo capaz de aliviar os encargos das
famílias e das empresas, quando fosse mais oportuno e quando fosse mais necessário. Não foi isso que
aconteceu, nem é isso que está a acontecer, neste momento.
O Governo encarou desde o início, desde a primeira hora, esta crise como uma oportunidade fiscal. As
medidas que apresentou foram tímidas, chegaram a poucos e revelaram-se manifestamente insuficientes.
Aplausos do PS.
O Partido Socialista tem-no dito de forma clara e inequívoca: o Governo tem ficado aquém das necessidades
do País, as necessidades das portuguesas e dos portugueses e as necessidades das nossas empresas.
As medidas que o Governo dinamizou serviram, sobretudo, para efeitos de propaganda, mas é importante
lembrar que a propaganda nunca resiste ao teste mais básico do confronto com a realidade.
Aplausos do PS.
Sr. Presidente, Sr.as e Srs. Deputados, infelizmente, nada disto surpreende. Afinal, o Governo tem a mesma
natureza e apoio partidário do espaço político que quis ir para além da troica, que quis cortar direitos, que quis
cortar pensões e que encarou a austeridade como uma opção política.
Aplausos do PS.
Essa matriz continua hoje bem visível, porque, quando surgem dificuldades, a primeira resposta do Governo
é pedir que cada um resolva sozinho os seus problemas.
O Sr. Gonçalo Lage (PSD): — E o Sócrates?!
O Sr. João Torres (PS): — Essa não é a nossa visão de sociedade e essa não é a visão de um Governo
que está à altura dos portugueses, nos momentos de maior exigência.
Aplausos do PS.
Mas este debate não é só sobre o passado, embora o passado seja importante.
O Sr. Gonçalo Lage (PSD): — E o Sócrates?!
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