Projeto de Resolução n.º 312/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que condene a perseguição ao Falun Gong e apele ao fim da
colheita forçada de órgãos na China
O respeito pela liberdade de pensamento, de religião e de consciência constitui um pilar
essencial de qualquer Estado de direito democrático. Em Portugal, tais liberdades estão
consagradas na Constituição e são parte integrante dos compromissos assumidos no
plano europeu e internacional.
O Falun Gong, também conhecido como Falun Dafa, é uma prática espiritual de
inspiração budista e taoista, fundada na China no início da década de 1990. O
movimento combina exercícios de meditação e práticas de qigong com um conjunto de
ensinamentos assentes em três princípios centrais: verdade, compaixão e tolerância. O
Falun Gong conheceu uma difusão muito rápida ao longo dos anos 90, contando com
dezenas de milhões de praticantes de todas as idades e classes sociais na China.
Durante alguns anos, o movimento chegou a ser reconhecido e elogiado pelas
autoridades chinesas devido aos seus efeitos positivos na saúde pública e no bem-estar
social. Contudo, a sua popularidade crescente começou a ser encarada como uma
ameaça pela liderança do Partido Comunista Chinês (PCC), particularmente pelo então
Secretário-Geral Jiang Zemin. Em 1999, o regime decretou a proibição da prática do
Falun Gong e lançou uma campanha de repressão sistemática. De acordo com diversos
relatórios internacionais de direitos humanos, as instruções transmitidas às autoridades
visavam “arruinar a reputação dos praticantes, levá-los à ruína financeira e destruir a
sua integridade física”, diretriz que marcou o início de uma perseguição que continua
até hoje.
Desde então, milhões de pessoas foram detidas arbitrariamente, muitas enviadas para
campos de trabalho forçado ou centros de “reeducação”. Estão documentados milhares
de casos de tortura e de mortes sob custódia. De acordo com dados recolhidos por
organizações de direitos humanos, pelo menos 5.000 praticantes foram mortos em
resultado direto da perseguição.
Um dos aspetos mais alarmantes desta repressão é a colheita forçada de órgãos. Desde
o início dos anos 2000, investigações independentes revelaram que praticantes de Falun
Gong detidos foram alvo de remoção não consentida de órgãos vitais — prática que
alimenta um dos maiores programas de transplantes do mundo. A inexistência de um
sistema nacional de doação voluntária de órgãos na China, a par do crescimento
exponencial das cirurgias de transplante a partir de 2000, levantou sérias suspeitas
sobre a origem desses órgãos.
Em 2019, o Tribunal da China — um tribunal independente presidido por Sir Geoffrey
Nice KC, antigo procurador do Tribunal Penal Internacional — concluiu “de forma
unânime e sem margem para dúvida razoável” que a colheita forçada de órgãos foi
praticada em larga escala na China e que os praticantes do Falun Gong foram “uma das
principais, e provavelmente a principal, fonte de fornecimento”. O relatório assinala que
esta prática continua a decorrer até hoje, envolvendo outros grupos perseguidos, como
uigures e tibetanos.
A comunidade internacional tem reagido. O Parlamento Europeu aprovou em 2024 a
Resolução 2024/2504, condenando a perseguição ao Falun Gong e apelando a que os
Estados-Membros adotem medidas para prevenir a cumplicidade em tais abusos.
Também a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou em maio de 2025 a
Falun Gong Protection Act (H.R. 1540), que introduz medidas específicas para sancionar
responsáveis e impedir a cooperação médica e científica com entidades envolvidas na
colheita de órgãos.
Estes desenvolvimentos sublinham a urgência de uma posição clara e firme de todos os
Estados democráticos, incluindo Portugal, no sentido de condenar estas violações
graves dos direitos humanos e de agir para que não exista qualquer forma de
cumplicidade — direta ou indireta — com tais práticas.
Resolução
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar da Iniciativa Liberal propõe que a Assembleia da República recomende
ao Governo que:
1. Condene a perseguição sistemática levada a cabo pelo Partido Comunista
Chinês contra praticantes do Falun Gong e outros prisioneiros de consciência;
2. Condene a prática da colheita forçada de órgãos na China, apelando à sua
cessação imediata;
3. Apoie, no plano europeu e internacional, iniciativas que visem investigar e
denunciar estes abusos, reforçando a cooperação com parceiros democráticos.
Palácio de São Bento, 25 de setembro de 2025
Os Deputados da Iniciativa Liberal,
Rodrigo Saraiva
Angélique Da Teresa
Carlos Guimarães Pinto
Joana Cordeiro
Jorge Miguel Teixeira
Mariana Leitão
Mário Amorim Lopes
Miguel Rangel
Rui Rocha
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