Projeto de Resolução n.º 661/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo o desenvolvimento de uma estratégia
integrada de redução do risco de cheias no Mondego, baseada em
soluções que protejam as pessoas, a natureza e o território
Exposição de motivos:
Num contexto em que se fazem sentir, de forma cada vez mais ampla e intensa, os efeitos
das alterações climáticas no território português, o LIVRE considera que é prudente adotar
uma abordagem cuidada e criteriosa quanto a megaprojetos de infraestruturação , como é o
caso de novas barragens, assegurando cautelas redobradas e estudos atualizados. A
realidade é que estes projetos podem agravar inundações a jusante ao limitar a capacidade
natural dos rios de drenar excessos, reduzir caudais ecológicos essenciais para ecossistemas
aquáticos já fragilizados, bem como comprometer a resiliência de longo prazo face a padrões
diferentes.
Dada a importância do tema, a União Europeia definiu como um objetivo central da sua
política ambiental restaurar e libertar os rios, repondo a sua continuidade ecológica e
melhorando o estado dos ecossistemas aquáticos até 2030. Isso inclui reabilitar pelo menos
25 000 km de cursos de água através da remoção de barreiras obsoletas, reconexão de
margens, zo nas húmidas e planícies de inundação, de modo a permitir a migração de
espécies, a redução do risco de cheias e a melhoria da qualidade da água 1. Estes objetivos
integram a Estratégia da UE para a Biodiversidade 2030 e a chamada Lei do Restauro da
Natureza, aprovada através do Regulamento (UE) 2024/1991 do Parlamento Europeu e do
Conselho de 24 de junho de 2024, além de se articularem com a Direti va-Quadro da Água,
aprovada através da Directiva 2000/60/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 23 de
Outubro de 2000, que exige que todos os Estados ‑Membros atinjam o bom estado das
massas de água superficiais e subterrâneas num horizonte temporal definido.
É uma necessidade urgente libertar os rios para restaurar a sua continuidade, para promover
dinâmicas fluviais naturais, a renaturalização e o desassoreamento e restabelecer corredores
ecológicos, em vez de privilegiar mega-obras que priorizem fins energéticos ou hidroelétricos
em detrimento de uma adaptação climática integrada. Esta foi, aliás, a linha orientadora do
LIVRE na sua reação à estratégia «Água que Une», apresentada em março de 20252. O que
1 Biodiversity Strategy 2030 Barrier Removal for River Restoration | Comissão Europeia
2 Eis o plano para a água: reutilizar, reduzir perda, construir barragens, ligar bacias | Público
o LIVRE quer garantir é que o planeamento e a gestão da água em Portugal se orientem pela
proteção das pessoas, das comunidades, dos ecossistemas e pelo cumprimento dos
objetivos europeus de restauro fluvial, assegurando que cada decisão é avaliada à luz da sua
contribuição para o bem ‑estar das populações, a resiliência climática e a conservação da
biodiversidade. Qualquer intervenção em rios e bacias hidrográficas deve privilegiar soluções
de base natural, a remoção de barreiras obsoletas e a recuperação d e regimes hidrológicos
mais próximos dos naturais, em vez de aprofundar modelos assentes em grandes
infraestruturas rígidas e de elevado impacto.
A barragem de Girabolhos, por exemplo, no alto Mondego, é um caso paradigmático.
Anunciada há anos, acabou por ser cancelada em 2016 3 para, em fevereiro deste ano, a
Ministra do Ambiente e Energia anunciar que emitirá um despacho até final de março para a
Agência Portuguesa do Ambiente (APA) lançar o concurso público desta barragem4.
Sucede que o Estudo de Impacte Ambiental (EIA) que era a base para a construção desta
barragem foi elaborado em 2010, estando portanto necessariamente desatualizado face aos
atuais cenários climáticos e não refletindo os critérios reforçados da Diretiva n.º 2011/92/UE,
de 13 de dezembro de 2011, relativa à avaliação dos efeitos de determinados projetos
públicos e privados no ambiente (conhecida como Diretiva AIA) e do Decreto -Lei n.º 151 -
B/2013, de 31 de outubro de 2013, que estabelece o regime jurídico da avaliação de impacte
ambiental dos projetos públicos e privados suscetíveis de produzirem efeitos significativos no
ambiente, e que transpõe a referida Diretiva.
Sucede também que o Governo anunciou que decidiu reativar o processo da barragem de
Girabolhos sem tornar público qualquer estudo de viabilidade que sustente tecnicamente esta
opção5. No entender do LIVRE, a ausência de um estudo desta natureza levanta questões
sobre a real necessidade da obra e quanto à sua fundamentação económica, ambiental e de
salvaguarda de pessoas e bens.
Importa ressalvar que o processo anterior dizia respeito a uma barragem concebida sobretudo
para fins hidroelétricos, com um modelo de exploração e avaliação de impactos centrados na
produção de energia 6. Já o novo concurso - anunciado na estratégia «Água que Une» e
relançado agora pelo Ministério do Ambiente e Energia - foi apresentado como um
empreendimento de fins múltiplos, integrando não apenas a geração de eletricidade, mas
também objetivos como o controlo de cheias, o apoio à agricultura ou o reforço de reservas
de água. Esta mudança de natureza e de propósitos altera profundamente o enquadramento
técnico, económico e ambiental do projeto, tornando desatualizadas muitas das premissas
em que o proced imento inicial assentava. Por isso, no entender do LIVRE, não se está
perante uma “retoma” do process o e impõe-se uma reavaliação completa desde o início,
garantindo uma análise atualizada e consistente com as novas finalidades atribuídas à
barragem de Girabolhos.
3 Governo cancela construção de barragens do Alvito e Girabolhos e suspende Fridão | Jornal de Negócios
4 Ministra promete despacho até março para construir barragem de Girabolhos | As Beiras
5 Concurso para Girabolhos recupera processo suspenso em 2016 | Observador
6 Aproveitamento Hidroeléctrico de Girabolhos | Sistema de Informação sobre Avaliação de Impacte Ambiental (APA)
Além disso, a própria estratégia «Água que Une» elencava, nas medidas regionais para o
Vouga, Mondego e Lis, a realização de um estudo para avaliar a viabilidade da construção
da barragem de Fins Múltiplos de Girabolhos, no valor de 300 milhões, a executar entre 2026
e 20377. Ora, o próprio Governo admitia, em 2025, que a decisão sobre o futuro da barragem
dependeria dos resultados de um estudo de viabilidade. Não faz, portanto, sentido avançar
no imediato com procedimentos administrativos ou concursos públicos sem que exista m
conclusões técnicas sólidas e atualizadas que fundamentem a opção. O LIVRE considera
essencial respeitar as etapas previstas, assegurando que qualquer intervenção decorra de
uma avaliação transparente e ambientalmente responsável, além de participada.
Acresce ainda que, dado que os prazos de concessão das barragens podem prolongar -se
por várias décadas até um máximo de 75 anos 8, é essencial que o planeamento tenha em
conta vários cenários climáticos ao longo desse horizonte. Ao longo de quase um século, é
altamente provável que se verifiquem alterações significativas nos padrões de precipitação,
na frequência e intensidade de ch eias e secas, e na disponibilidade hídrica global de uma
bacia. Por isso, o dimensionamento, a exploração e a avaliação de riscos de uma barragem
devem incorporar projeções conservadoras e alternativas, incluindo cenários mais extremos.
Esta abordagem precaucionária no planeamento e na exploração de uma barragem é, em
última análise, uma abordagem que protege também pessoas e bens.
É, por isso, necessário que se proceda a todo um novo processo de Avaliação de Impacte
Ambiental que deve incorporar modelações hidrológicas atualizadas para o Mondego com
cenários climáticos atualizados, avaliações de biodiversidade com espécies protegida s nas
galerias ripícolas afetadas, estimativa de emissões de gases com efeito de estufa (CH4 e CO2)
a partir da albufeira, tendo em consideração a possibilidade de arrastamento de solos
degradados/ardidos. Devem ainda ser previstas e discutidas de forma al argada alternativas
à construção da barragem.
Aliás, o anúncio já levou a reações de preocupação, designadamente da Câmara Municipal
de Seia, que recusa ser "sacrificada" no processo da barragem de Girabolhos, exigindo
solidariedade nacional 9. Uma obra desta envergadura terá necessariamente de ter um
processo transparente e alargado de consulta pública, com audições formais dos municípios
afetados, universidades, organizações ambientais e as populações abastecidas pela água do
Mondego.
Motivada por este anúncio, a organização não governamental de ambiente ZERO fez saber
que considera a barragem de Girabolhos uma falsa solução para as cheias do Mondego,
apontando que o facto de a obra demorar muitos anos até estar operacional e de, mesmo do
ponto de vista hidrológico, ter capacidade limitada para controlar cheias prolongadas, é
motivo suficiente para que o Governo repensar esta solução10.
7 Estratégia «Água que Une», pág. 22
8 Aproveitamentos hidráulicos – Concessões | Agência Portuguesa do Ambiente
9 Seia recusa ser sacrificada e exige solidariedade nacional no processo da Barragem de Girabolhos | Câmara Municipal de
Seia
10 ZERO considera barragem de Girabolhos uma falsa solução para as cheias do Mondego | ZERO
A Organização denuncia ainda o elevado custo da barragem e a ausência de uma
comparação séria com alternativas mais eficazes e descentralizadas, defendendo, em vez
disso, medidas imediatas de proteção e apoio às populações, soluções baseadas na
natureza, o cumprimento rigoroso do ordenamento do território e uma gestão integrada da
bacia do Mondego com estudos atualizados e participação pública, apelando por isso ao
Governo para abandonar o projeto e apostar numa adaptação estrutural e ecológica do
território.
O LIVRE reconhece absolutamente a gravidade da situação vivida em Coimbra na primeira
metade de fevereiro, mas ressalva que esse é exatamente o motivo pelo qual não se devem
adotar decisões precipitadas relativamente a obras de grande envergadura e elevado
impacte, como é o caso da construção de uma barragem. Se episódios desta natureza
resultam muitas vezes de décadas de ausência de planeamento estratégico e de um
ordenamento do território insuficiente ou inadequado, que permitiu a ocupação de zonas de
risco, a impermeabilização excessiva dos solos e a degradação dos ecossistemas ribeirinhos,
não se pode cair na tentação de resolver tais problemas, que são complexos, sem planear de
forma consequente e rigorosa. Nesses contextos, a pressão - legítima - para agir rapidamente
não pode servir de pretexto para repetir o mesmo padrão de respostas apressadas e pouco
estruturadas. Pelo contrário, impõe -se um reforço do planeamento rigoroso, da avaliação
séria de alternativas e da ponderação responsável dos riscos a longo prazo. Impõe-se uma
ação assente na racionalidade, na fundamentação científica e em instrumentos de
ordenamento do território robustos. Essa é não só uma forma de proteger as populações
atuais, como também uma forma de proteger as populações futuras.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Desenvolva uma estratégia integrada de longo prazo para reduzir o risco de cheias no
Mondego, priorizando a proteção das pessoas, soluções baseadas na natureza e o
cumprimento do ordenamento do território, apoiando todas as decisões em evidência
científica e num processo transparente de participação pública;
2. Assegure que qualquer decisão sobre a construção da barragem de Girabolhos tenha
como condição indispensável a realização de um novo processo de Avaliação de
Impacte Ambiental robusto;
3. Assegure, no decorrer do processo de Avaliação de Impacte Ambiental, a realização
de um processo de consulta pública alargado que envolva os municípios afetados, a
comunidade académica, a sociedade civil e os utilizadores da água daquela bacia
hidrográfica.
Assembleia da República, 03 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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