Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/
Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 491/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo a desclassificação parcial e divulgação do Plano de Ação
de Prevenção da Radicalização e dos Extremismos Violentos e do Recrutamento
para o Terrorismo
A segurança e a integridade do Estado de Direito democrático enfrentam, na presente
década, um desafio de natureza híbrida e complexa, caracterizado pela transposição de
ideologias extremistas para o ecossistema digital, com um foco incisivo na
vulnerabilidade de estratos geracionais mais jovens.
A manutenção da coesão social e a prevenção da violência aconselham uma reavaliação
de procedimentos e classificações que, até ao momento, têm envolvido instrumentos
estratégicos como o Plano de Ação de Prevenção da Radicalização e dos Extremismos
Violentos e do Recrutamento para o Terrorismo, aprovado pelo Sistema de Segurança
Interna (SSI).
Este Plano permanece classificado como reservado, o que, na ótica da Direção Nacional
da Polícia Judiciária, constitui um obstáculo à mobilização efetiva da sociedade civil e das
instituições de primeira linha no combate à radicalização.
A realidade epidemiológica deste fenómeno em solo europeu apresenta indicadores
alarmantes, conforme corroborado por dados da Europol que apontam que, no ano de
2024, aproximadamente 30% dos indivíduos detidos por crimes associados ao
extremismo violento na União Europeia eram menores ou jovens adultos, registando-se
a detenção de uma criança com apenas 12 anos de idade.
Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/
Em Portugal, o Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) já identificou a existência de
menores radicalizados por novos movimentos extremistas, impulsionados por lideranças
carismáticas que operam como influenciadores digitais e que logram normalizar
discursos de ódio e segregação.
Este processo de recrutamento é potenciado por vetores tecnológicos sofisticados,
incluindo plataformas de gaming e redes de comunicação encriptada, onde o anonimato
e a ausência de supervisão facilitam a exposição a conteúdos de violência extrema, tais
como planos de agressões físicas e coação psicológica.
A perigosidade desta conjuntura materializou-se em casos concretos investigados pelas
autoridades nacionais, como o de um jovem residente em Santa Maria da Feira que
liderava uma rede internacional dedicada à instigação de massacres e tortura, estando
acusado de mais de 240 crimes e demonstrando planos concretos para a execução de
atentados em território nacional.
A radicalização não se circunscreve a contextos familiares desestruturados, sendo um
fenómeno transversal que afeta diversos níveis sociais. Tecnicamente, a adesão a estas
correntes de pensamento violento é catalisada por fatores críticos como a busca de
identidade em fases de formação da personalidade, a influência de algoritmos que
segregam os utilizadores em bolhas ideológicas, a redução da empatia provocada pelo
distanciamento digital e uma lacuna profunda em termos de literacia digital e
insuficiência de respostas institucionais.
Face a este cenário, a manutenção do Plano sob segredo de Estado impede que escolas,
famílias, organizações sociais e até órgãos de soberania conheçam os sinais de alerta e as
diretrizes estratégicas necessárias para uma intervenção precoce.
A desclassificação parcial deste documento é, portanto, um imperativo de segurança
pública, permitindo que a resposta do Estado e da sociedade civil se torne uma estratégia
integrada e preventiva, capaz de mitigar os riscos de recrutamento e proteger as
Assembleia da República - Palácio de S. Bento - 1249-068 Lisboa - Telefone: 21 391 7592
Email: bloco.esquerda@be.parlamento.pt - http://parlamento.bloco.org/
infraestruturas de comunicação de serem instrumentalizadas para o incitamento à
violência.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação
Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo:
Proceda à desclassificação parcial e subsequente divulgação pública do Plano de Ação de
Prevenção da Radicalização e dos Extremismos Violentos e do Recrutamento para o
Terrorismo, no que respeita à nota justificativa e princípios gerais nele constantes,
mantendo classificadas as matérias referentes ao envolvimento das entidades e ações
específicas, donde possam resultar o comprometimento de questões relativas à
segurança operacional e salvaguarda dos objetivos do Plano, que não podem, nem devem,
ser do domínio público.
Assembleia da República, 14 de janeiro de 2026.
O deputado
Fabian Figueiredo
Abrir texto oficial