Projeto de Resolução n.º 833/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que incentive a transição para uma agricultura
mais sustentável e resiliente
Pese embora uma parte da atenção atual se centre no preço do cabaz alimentar, a sofrer o
forte impacto dos ataques de Israel e Estados Unidos da América ao Irão, e que tem
conduzido a um aumento generalizado do custo de vida - e talvez também por isso mesmo -
, não pode deixar de se prestar atenção aos métodos que a agricultura tradicional utiliza,
tendo em conta fator es como a salvaguarda da segurança alimentar nacional, defesa dos
agricultores nacionais e da capacidade produtiva do setor agrícola.
A esse respeito, o próprio setor da produção de fertilizantes reconhece que "a agricultura
portuguesa tem evoluído ao long o dos últimos anos para modelos de nutrição vegetal
baseados em produtos mais refinados, complexos e tecnologicamente mais avançados",
razão pela qual "a nossa exposição direta a este tipo de fertilizantes mais básicos é, em
muitos casos, menor do que em outros países da União Europeia, como França ou Espanha,
por exemplo"1.
Do mesmo modo, sabe-se que a utilização de fertilizantes químicos de síntese tem impactos
profundos na agricultura e no ambiente. A sua utilização - que pode representar até 30-40%
dos custos em culturas intensivas como as de cereais, hortícolas e frutas2 - provoca lixiviação
de nutrientes para águas subterrâneas e rios, eutrofização de ecossistemas aquáticos, perda
de biodiversidade no solo e emissões de gases com efeito de estufa 3. É p or isso que tem
havido um movimento global crescente para reduzir o seu uso excessivo e promover
alternativas sustentáveis, com reflexo no Pacto Ecológico Europeu4, que estabeleceu metas
de redução de 50% até 2030 5. Em alternativa, incentiva -se a adoção de fertilizantes
orgânicos, biofertilizantes, adubos verdes e práticas agroecológicas que restauram a
fertilidade natural dos solos, diminuem a dependência de importações e reforçam a resiliência
do sector da agricultura tanto face a crises energéticas como à climática.
Um estudo da Aliança Europeia para a Agricultura Regenerativa demonstrou que o uso de
fertilizantes sintéticos pode ser reduzido em 61% e o de pesticidas em 76%, com uma redução
1 Volatilidade dos preços e subida de custos de importação de fertilizantes preocupa| Jornal de Negócios
2 Fertilizantes sob pressão: energia e taxa de carbono sobem preços dos alimentos| Jornal Económico
3 Metade dos fertilizantes agrícolas utilizados em Portugal pode originar poluição do solo e da água| ZERO
4 Pacto Ecológico Europeu | Conselho Europeu
5 Nutrients - Agriculture and rural development | Comissão Europeia
de apenas 2% na produtividade, melhorando, em muitos casos, as margens de lucro das
explorações6.
O LIVRE entende, assim, que a situação atual abre mais uma vez a discussão sobre a
necessidade de o Estado incentivar de forma determinante a transição para uma agricultura
mais sustentável, mas também mais resiliente face a crises naturais ou globais (fenómenos
climáticos extremos, pandemias, guerras) que afetam as subidas de preços do petróleo e,
consequentemente, dos diversos fatores de produção, aumentando também o custo de
produção para os agricultores e o preço do cabaz alimentar para os consumidores.
A verdade é que o setor agrícola português tem mostrado uma enorme abertura para uma
transição faseada e apoiada, baseada na introdução de práticas inovadoras que permitam
assegurar uma maior independência face a fatores de produção externos, ao mesmo tempo
que melhoram o solo e mantêm a produtividade. Tal é o caso das práticas tipicamente
associadas à agricultura regenerativa e que estão a ser adotadas por agricultores dos mais
diversos contextos (do milho à pecuária, passando pela vitivinicultura), com enorme sucesso.
Estas práticas incluem, entre outras, os sistemas de pastoreio rotativo regenerativo, a lavoura
mínima, a sementeira direta, as culturas de cobertura, os novos sistemas agroflorestais de
sucessão, a vitivinicultura regenerativa, a introdução de animais em sistemas predominante
e exclusivamente agrícolas, a compostagem biológica, o uso de bioestimulantes, a introdução
de práticas de desenho hidrológico, entre tantas outras.
Estas práticas combinadas, muitas delas reconhecidas e recomendadas por diversas
correntes (agricultura biológica, agricultura de conservação, permacultura, agroecologia,
entre outras) têm a vantagem de, quando agregadas e realizadas de forma correta e
prolongada, manter a capacidade produtiva. Simultaneamente, regeneram as propriedades
do solo, a capacidade de infiltração de água, melhoram a densidade nutricional dos alimentos
e diminuem a dependência face a fatores externos de produção, aumentando a resiliência do
setor. É por tudo isto desejável, do ponto de vista do LIVRE, o apoio financeiro para a adoção
de práticas agrícolas mais sustentáveis, como as mencionadas, garantindo que a
reestruturação do modelo produtivo nacional se faz em consonância com os objetivos de
segurança alimentar e de neutralidade carbónica.
A adoção destas práticas pode:
● aumentar em 33% a produtividade total em média, com ganhos até 52%;
● assegurar a paridade entre o rendimento e a redução significativa da dependência de
fatores de produção externos: as explorações em regeneração conseguiram, em
média, uma redução de apenas 2% no rendimento (em kcal e proteínas), utilizando
menos de 61% de fertilizantes nitrogenados sintéticos e menos de 75% de pesticidas,
além de obterem uma margem bruta por hectare 20% superior;
● contribuir para melhorar a soberania alimentar regional: enquanto as explorações
agrícolas médias da UE importam mais de 30% da ração animal de fora da UE, os
agricultores regenerativos pioneiros alcançaram rendimentos semelhantes utilizando
ração exclusivamente da Europa;
6 How Iran war exposes Europe’s dangerous dependency on fertilisers | EUobserver
● garantir um desempenho ecossistémico mais robusto, com mais de 25% de
fotossíntese, 24% de cobertura do solo e 16% de maior biomassa vegetal7.
Deve, neste sentido, ser desenvolvida uma verdadeira estratégia integrada que combine
incentivos económicos e investimento em produção de conhecimento técnico, permitindo que
os produtores reduzam gradualmente a dependência de fertilizantes químicos, sem, por outro
lado, comprometer a sua produtividade.
De facto, Portugal poderia tornar-se um exemplo europeu de transição ecológica justa no
setor agrícola e assegurar que o esforço de adaptação é equilibrado e benéfico para todos
os intervenientes no setor, dos agricultores aos consumidores.
Importa incentivar práticas agrícolas que garantam uma transição de sucesso, que aumentem
a sustentabilidade da produção agrícola, sem provocar aumento de custos nos produtores
nem aumento nos preços finais, que melhore o estado de saúde dos solos (conforme
preconizado na Estratégia de Proteção do Solo da UE para 2030), reforçando ainda o
alinhamento de Portugal com o objetivo europeu de garantir que 25% da superfície agrícola
útil se encontre em modo de produção biológico até 2030, conforme a Estratégia Europeia
“Do Prado ao Prato”8.
A agricultura pode e deve ter um papel complementar na recuperação da fertilidade dos solos,
no aumento da biodiversidade e na capacidade de sequestro de carbono e contribuir para os
objetivos nacionais de neutralidade climática e de resiliência alimentar.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Promova a transição para uma agricultura sustentável e resiliente baseada em
práticas com reconhecida eficácia de agricultura regenerativa, aplicáveis e adaptadas
a diferentes contextos de produção e de escala, através de incentivos financeiros à
conversão e apoio técnico em práticas regenerativas, reduzindo a dependência de
fatores de produção químicos importados e reforçando a resiliência territorial e a
segurança alimentar;
2. Promova a reciclagem e atualização de conhecimentos dos organismos do Estado no
setor, através de formação interna de quadros técnicos em agricultura regenerativa;
3. Incentive e apoie tecnicamente a capacitação dos agricultores, promovendo o
desenvolvimento das suas competências para a adoção de práticas agrícolas
ajustadas às especificidades culturais, sociais e edafo-climáticas de cada região;
4. Crie um programa plurianual de incentivos à substituição faseada de fatores de
produção químicos de síntese por práticas agrícolas que restabeleçam o potencial
produtivo dos terrenos agrícolas, designadamente destinado:
7 Farmer-led Research on Europe’s Full Productivity: The Realities of Producing More and Better with Less - Place-based
Innovation for the Good of all (pág. 4)
8 Comunicação da Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social Europeu ao Comité das
Regiões - Estratégia do Prado ao Prato para um sistema alimentar justo, saudável e respeitador do ambiente-Lex -
52020DC0381 - EN - EUR-Lex
a) à aquisição de cercas elétricas e vedações virtuais, essenciais a um pastoreio
rotativo eficiente;
b) à aquisição e utilização de fertilizantes orgânicos, bioestimulantes e
compostos;
c) à aquisição e utilização de equipamentos para elaboração de biocompostos;
d) à aquisição e utilização de equipamentos e alfaias para melhorar o desenho
hidrológico da paisagem ou que minimizem o distúrbio do solo;
e) à adoção de outras soluções que incentivem práticas de gestão agrícola e de
solos mais responsáveis e reduzam significativamente a necessidade da
importação de fertilizantes.
Assembleia da República, 09 de abril de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Paulo Muacho Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Rui Tavares Tomás Cardoso Pereira
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