PROJETO DE RESOLUÇÃO N.º 368/XVII/1.ª
Institui o dia 22 de julho como Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa
Exposição de motivos:
A Calçada Portuguesa constitui uma das manifestações identitárias mais emblemáticas
e reconhecidas do nosso país, sendo, simultaneamente, um pavimento funcional e com
características artísticas . Caracterizada pela disposição harmoniosa de pedras,
geralmente calcário branco e basalto ou calcário preto, mas também de outras cores,
que compõem padrões e de senhos de grande valor estético, a Calçada Portuguesa
transformou praças, ruas e largos em verdadeiros “tapetes de pedra” que distinguem o
espaço público em Portugal, constituindo -se como marca da identidade e da cultura
portuguesas.
A Calçada Portuguesa i nspira-se na técnica de assentamento herdada das calçadas
funcionais romanas à qual se juntou a decoração herdada do mosaico. Tal como a
conhecemos hoje, nasceu em Lisboa, em meados do século XIX e rapidamente se
espalhou por todo o território nacional (continental e insular), tendo presença marcante
na paisagem urbana em cerca de 290 municípios. Para além de Portugal, marca
presença relevante em vários outros países do mundo, com destaque para aqueles com
os quais temos maiores relações históricas e cultur ais, mas também, noutros em que
as comunidades portuguesas estão presentes, reforçando o seu papel como veículo de
afirmação e partilha cultural entre povos.
A Calçada Portuguesa, mais do que um pavimento que pisamos, é um fator de
identidade, de afetividade e de diferenciação histórica, artística e cultural de Portugal
que se espalhou pelo mundo. Mais, a Calçada Portuguesa é um material natural,
ambientalmente sustentável durante todo o processo, desde a extração (pouco intrusiva
no meio ambiente, dado que utiliza apenas os estratos superficiais das pedreiras, que
são facilmente renaturalizadas) à aplicação (utilizando exclusivamente materiais
naturais), assegurando a permeabilidade dos pavimentos e sendo de longa duração.
A preservação e continuidade desta arte depende, sobretudo, do trabalho e dedicação
dos calceteiros. É através da perícia técnica, da experiência acumulada e da criatividade
destes profissionais que a pedra ganha forma e se transforma em desenho e expressão
cultural. A profissão de calceteiro, contudo, enfrenta sérias dificuldades: o esforço físico
exigente, a reduzida remuneração e o fraco reconhecimento social tornam -na pouco
atrativa para os mais jovens, comprometendo a renovação geracional e colocando em
risco a transmissão deste saber-fazer único.
Foi por esta razão que, por iniciativa da Associação da Calçada Portuguesa, a “Arte e
Saber-fazer da Calçada Portuguesa” foi proposta para inscrição no Inventário Nacional
do Património Cultural Imaterial, processo que culminou com a publicaçã o, em 22 de
julho de 2021, do anúncio em Diário da República que oficializou este reconhecimento,
atribuindo-lhe carácter de salvaguarda urgente. O registo destacou a sua relevância
cultural, a importância social da profissão de calceteiro e o risco de desaparecimento do
ofício sem medidas de proteção adequadas.
Paralelamente, encontra -se já em análise pela Comissão Nacional da UNESCO a
candidatura da “Arte e Saber-fazer da Calçada Portuguesa” à Lista Representativa do
Património Cultural Imaterial da Hu manidade, processo que poderá consolidar a sua
valorização internacional, afirmar a sua dimensão universal e assegurar maior proteção
e reconhecimento para os profissionais que a mantêm viva.
Importa também referir que a Assembleia da República, através da Resolução n.º
54/2018, aprovada por unanimidade, recomendou ao Governo a valorização da calçada
portuguesa e da profissão de calceteiro, defendendo a candidatura à UNESCO.
Assim, instituir o Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa, a assinalar em
22 de julho, evocando o dia em que se oficializou a inscrição no Inventário Nacional do
Património Cultural Imaterial, pretende ser uma homenagem a estes profissionais e ao
seu saber-fazer único, ao mesmo tempo que valoriza umpatrimónio nacional identitário
e cultural e reforça o compromisso nacional para com a sua preservação, transmissão
e promoção.
Este dia deve servir, ainda, como ocasião para mobilizar entidades públicas e privadas,
municípios, instituições culturais e associações profissionais e a sociedade em geral ,
em torno da valorização da calçada e dignificação dos calceteiros , promovendo a
salvaguarda de um património que reúne história, arte, cultura, identidade e
sustentabilidade.
Assim, a Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da
Constituição da República Portuguesa:
Instituir o dia 22 de julho como “Dia Nacional do Calceteiro e da Calçada Portuguesa”.
Incentivar que a efeméride seja anualmente assinalada com iniciativas de homenagem
aos calceteiros, de promoçã o da calçada portuguesa e de sensibilização para a sua
salvaguarda e valorização.
Recomendar ao Governo que, em articulação com as autarquias locais, associações
representativas, instituições culturais e de ensino, promova ações de divulgação,
formação e r econhecimento público do trabalho dos calceteiros e da calçada
portuguesa, reforçando o seu papel como património cultural de valor nacional e
internacional.
Palácio de São Bento, 26 de novembro de 2025
As (Os) Deputadas(os),
Hugo Lopes Soares
João Antunes dos Santos
Gonçalo Capitão
Sofia Carreira
Paulo Cavaleiro
Ana Isabel Ferreira
Carolina Marques
Ricardo Aires
Ricardo Barroso
Alberto Machado
Bruno Faria
Cristina Vaz Tomé
Emídio Guerreiro
Eva Brás Pinho
Inês Barroso
Joana Seabra
João Pedro Louro
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