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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução nº 472/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que condene as ameaças de anexação da Gronelândia pela
administração Trump e afirme a sua solidariedade com os governos da
Gronelândia e do Reino da Dinamarca
Exposição de Motivos
A ordem internacional contemporânea enfrenta um dos seus maiores desafios perante o
ressurgimento de um unilateralismo agressivo por parte da administração dos Estados
Unidos da América. A 5 de janeiro de 2026, o Presidente Donald Tru mp reiterou e
intensificou a sua pretensão sobre o território da Gronelândia. Em declarações que ecoam
lógicas expansionistas do século XIX, Trump afirmou taxativamente: “ falamos sobre a
Gronelândia daqui a 20 dias”, estabelecendo um horizonte temporal para uma pretensão
que viola frontalmente os princípios da Carta das Nações Unidas.
Ao projetar o seu poder militar e económico sobre o Ártico, a administração Trump
sinaliza um abandono das normas do multilateralismo em favor de uma "Doutrina
Monroe" de alc ance global, onde estados soberanos e territórios autónomos são
reduzidos a meros ativos num balanço imobiliário e estratégico.
O que em 2019 foi apresentado como uma proposta de transação comercial absurda, a
compra de um território soberano à Dinamarca, evoluiu, em 2025 e no início de 2026,
para uma estratégia de assédio diplomático e militar de que são exemplo a nomeação de
emissários especiais e a constante retórica de que a Dinamarca “não consegue” proteger
o território, que visam deslegitimar a sober ania dinamarquesa e a autonomia
gronelandesa.
Do ponto de vista do Direito Internacional Público, a pretensão norte-americana ignora o
Estatuto de Autonomia de 2009 (Selvstyre), que reconhece ao povo da Gronelândia o
direito à autodeterminação. Qualquer tentativa de alteração do estatuto territorial da ilha
sem o consentimento livre do seu povo e do Parlamento da Dinamarca (Folketing)
constitui uma violação do princípio da integridade territorial e da autodeterminação dos
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povos. A utilização de pressão económica e a ameaça implícita de força, como sugerido
por Donald Trump ao não excluir meios militares para garantir o controlo do Ártico, são
atos de agressão diplomática que a Assembleia da República não pode ignorar.
A agressividade da administração Trump é indissociável da corrida aos recursos naturais
num Ártico em degelo. A Gronelândia possui das maiores reservas mundiais de terras
raras e minerais críticos, essenciais para a transição tecnológica, mas também para a
indústria armamentista. O interesse de Washington não é humanitário nem de
cooperação, é um interesse extrativista e de projeção de força.
A militarização da Base Aérea de Pituffik (antiga Thule) e a purga de oficiais que não
alinham com a visão anexionista de Trump demonstram que a administração está a
transformar a Gronelândia num porta-aviões fixo no Atlântico Norte. Esta estratégia de
securitização agressiva ignora a fragilidade ecológica da região e a necessidade de manter
o Ártico como uma zona de baixa tensão, conforme historicamente defendido pelo
Conselho do Ártico, organismo que os EUA têm tentado marginalizar em favor de
negociações bilaterais de força.
O Primeiro-Ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen, foi forçado a emitir um
comunicado de urgência a 5 de janeiro de 2026, afirmando que “Basta” e exigindo o fim
das provocações que desestabilizam a política interna da ilha. O sentimento de indignação
é partilhado em Copenhaga, onde a Primeira-Ministra, Mette Frederiksen, classificou as
ameaças como uma regressão civilizacional.
A “guerra psicológica” perpetrada por elementos ligados à sua administração, como a
difusão de imagens do mapa da Gronelândia com a bandeira dos Estados Unidos da
América sob a legenda "SOON" (em breve), visa criar um estado de inevitabilidade sobre
a anexação. Esta tática de intimidação é típica de regimes autoritários e não deve ter lugar
nas relações entre estados.
Portugal, como país com uma vasta Zona Económica Exclusiva e interesses diretos na
estabilidade do Atlântico Norte e na governação legal dos oceanos, tem a obrigação
política e diplomática de se posicionar. A aceitação passiva da ideia de que territórios
podem ser comprados ou anexados por alegada “necessidade de segurança” de uma
superpotência são uma ameaça direta à paz mundial.
A política externa portuguesa deve ser pautada pela defesa da paz, da desmilitarização e
do respeito rigoroso pelas fronteiras e autonomias estabelecidas. A defesa da
Gronelândia é, hoje, a defesa do próprio conceito de soberania perante a prepotência de
uma administração que se julga acima da lei e da vontade dos povos.
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Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação
Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
1. Condene veementemente as declarações do Presidente Donald Trump e de membros
da sua administração que visam a anexação da Gronelândia, qualificando-as como
ameaças à soberania nacional e ao direito internacional;
2. Reconheça o direito inalienável do povo da Gronelândia à sua autodeterminação e ao
usufruto soberano dos seus recursos naturais, rejeitando qualquer lógica de
mercantilização de territórios e populações;
3. Diligencie junto do Conselho Europeu e do Alto Representante da União para os
Negócios Estrangeiros para que a UE adote uma posição de firmeza diplomática,
assegurando que a integridade territorial do Reino da Dinamarca é uma linha
vermelha inegociável nas relações transatlânticas;
4. Promova o reforço do Conselho do Ártico como o fórum multilateral primordial para
a gestão da região, opondo-se à sua militarização e à exploração predatória de
recursos por potências estrangeiras sob coerção;
5. Expresse formalmente, através dos canais diplomáticos, a solidariedade do Estado
português para com os governos da Gronelândia e do Reino da Dinamarca perante as
pressões exercidas pela administração dos Estados Unidos da América.
Assembleia da República, 5 de janeiro de 2026.
O Deputado do Bloco de Esquerda,
Fabian Figueiredo
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