Projeto de Resolução n.º 764/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo que realize anualmente uma campanha nacional de
sensibilização para o não acorrentamento de cães
Exposição de motivos
Portugal é o segundo país da União Europeia com mais cães por habitante - existem 27
cães por cada 100 habitantes, colocando o país em segundo lugar no ranking europeu,
logo atrás da Hungria (29 por 100) 1. Em 2023, os animais de companhia registados em
Portugal já tinham ultrapassado os quatro milhões.
Os animais de companhia são vulneráveis e dependem do ser humano , por isso
devemos refletir sobre as responsabilidades que temos para com eles, sobretudo
porque detemos o poder e a autoridade para tomar decisõ es que podem determinar a
sua sobrevivência, assim como sobre que tipo de relação deveremos estabelecer.2 Neste
contexto, acreditamos que a forma como uma sociedade vê e trata os seus animais de
companhia constitui um importante indicador do seu nível de desenvolvimento ético e
civilizacional, refletindo os valores de respeito e responsabilidade perante seres mais
vulneráveis e dependentes de nós.
O bem-estar animal diz respeito ao bem-estar físico e mental. Portanto na sua avaliação
devem considerar-se tanto os aspetos fisiológicos como os comportamentais.3 No caso
dos animais de companhia, esta preocupação tem vindo a assumir -se como um valor
fundamental da sociedade, refletindo uma maior consciência ética relativamente à
forma como os seres humanos se re lacionam com os seus companheiros de quatro
1 https://www.veterinaria-atual.pt/na-pratica/portugal-caes-por-habitante/#sidr-main
2 https://ebrary.net/27525/environment/introduction
3 https://www.icnf.pt/api/file/doc/41f8f44aee23be1a
patas. Não obstante, há ainda um longo caminho a percorrer para garantir que todos
estão consciencializados de que, a partir do momento em que estão sob nossa tutela,
os animais são membros da família e, por isso , merecem um tratamento digno, não
devendo ser privados das condições necessárias a assegurar o seu bem-estar, exigindo-
se dos seus detentores não apenas a satisfação das suas necessidades básicas, mas
também uma relação constante de cuidado, amor e atenção.
É de conhecimento comum a existência de frequentes casos de acorrentamento
permanente de cães ou sujeição destes à sobrevivência em espaços manifestamente
apertados, sujos e, no final do dia, indignos. Muitos destes animais passam a vida inteira
privados de estímulo, interação social com humanos e outros animais e,
verdadeiramente, passam uma vida sem ser amados. Sofrem em silêncio, seja porque a
sua situação é desconhecida, seja porque não é denunciada, seja porque, quem
conhece, não se quer “intrometer”. Muitos não têm um abrigo, outros dormem dentro
de bidões de metal que ardem ao sol, outros sentam-se sobre a lama ou cimento gelado.
Quase nenhum destes cães conhece outra vida que não estar amarrado a uma corrente.
Quase nenhum destes cães sabe o que é a possibilidade de expressar o seu
comportamento natural.4
A existência de animais acorrentados é degradante para qualquer sociedade que se diga
desenvolvida. O acorrentamento provoca lesões no pescoço e nas patas, dificuldades de
locomoção, problemas de pele e acumulação de sujidade. Além disso, estes cães
tornam-se muito nervosos, reativos e carentes, pois não conseguem libertar a sua
energia e frustração.5
Acrescenta-se o seguinte: perante catástrofes naturais e situações de calamidade,
assistimos já, tristemente, às consequências nefastas do acorrentamento e
aprisionamento dos animais de companhia. Muitos acabam por ficar gravemente
feridos ou, até, por per der a sua vida. Em Loures, no final de 2022, dezenas de cães
4 https://www.liberta-me.org/acorrentados/
5 https://www.veterinaria-atual.pt/na-pratica/um-animal-acorrentado-e-um-animal-esquecido/
acorrentados morreram afogados 6. Foram resgatados quatro animais - três cães e um
gato, pelo núcleo de Intervenção e Resgate Animal (IRA), estimando -se ainda dezenas
de mortes de outros animais qu e ficaram impossibilitados de fugir quando o nível das
águas começou a subir. Importa ainda salientar que a literatura científica indica que, em
contexto de catástrofe, a impossibilidade de evacuar animais de companhia está
associada ao seu abandono involuntário e a um maior risco de sofrimento e mortalidade,
evidenciando a necessidade de integrar estes animais no planeamento de emergência.7
Vários relatos existem, dados por civis, de situações comoventes e infelizes de animais
sujeitos a condições tristes e indignas: alguns conseguem um final feliz. Outros, diga-se,
a maioria, infelizmente nunca tiveram a oportunidade de ser cuidados e amados: “no
domingo, enquanto passeava pelos arredores da aldeia, vi um cão grande, rafeiro, preso
a uma casota. Deitado, o lhava para a estrada com a atitude tensa de quem sabe que,
por muito que queira, a sua vida está limitada a um ponto fixo. Com o olhar resignado e
a ausência de latidos e puxões de quem já percebeu que nada vai mudar”.8
Estes tratamentos mostram, em alguns casos, valores morais muito precários mas
noutros casos trata -se de desconhecimento sobre as necessidades de bem -estar dos
animais. Os animais, em especial os cães, são animais sociais que necessitam de
convivência para sobreviver. Estudos apontam que, an imais que vivem acorrentados
sozinhos num local durante horas, semanas, meses, anos, tornam-se animais frustrados,
infelizes e, até, perigosos. De facto, o alojamento solitário pode induzir stresse crónico
em cães, manifestando-se por aumento da agressividade, excitação e incerteza.9
As organizações de proteção animal procuram promover o conhecimento público sobre
as necessidades dos animais, recorrendo frequentemente a campanhas de
sensibilização que incidem sobre diferentes dimensões do bem -estar animal. 10 Mais
6 Dezenas de cães acorrentados morreram afogados em Loures - CNN Portugal
7 https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5551593/
8 https://lenda.net/pt/caes-acorrentados/
9 Estresse crônico em cães submetidos a restrições sociais e espaciais. I. Respostas
Comportamentais - ScienceDirect
10 https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10854513/
importante que punir é evitar. "Evita-se sensibilizando e educando, razão pela qual o
CHEGA considera essencial programar campanhas específicas para esse efeito e
promover alterações legislativas mais compatíveis com a salvaguarda do bem -estar
animal.
Assim, nos termos constitucionais e regimentais aplicáveis, os deputados do Grupo
Parlamentar do CHEGA recomendam ao Governo que:
1 – Promova anualmente uma campanha nacional anti -acorrentamento de cães, com
vista:
a) A uma maior sensibilização para os impactos do acorrentamento permanente, dando
alternativas de contenção dos animais, que ainda assim lhes permita expressar o seu
comportamento natural e ter condições de bem-estar;
b) Dar indicação expressa de comportamento desejável em caso de catástrofe natural.
2 – Adote as medidas necessárias para uma maior fiscalização, relativamente a casos de
acorrentamento e confinamento de animais de companhia, bem como de outras
situações de maus-tratos.
3 – Promova a formação dos agentes fiscalizadores nesta m atéria, em articulação com
as autarquias locais e a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária.
4 – Inclua no Relatório de Atividade dos Centros de Recolha Oficial informação sobre os
impactos da referida campanha, com informação dos meios empregues, das pessoas
alcançadas e dos resultados atingidos.
5 – Avalie a introdução de restrições legais ao acorrentamento de cães, impedindo as
situações em que o meio de contenção limite significativamente a mobilidade do animal,
designadamente quando a corrente ou dispositivo equivalente não permita uma área
de circulação adequada ao seu porte e necessidades comportamentais.
Palácio de S. Bento, 30 de março de 2026
Os deputados do Grupo Parlamentar do CHEGA
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