Projeto de Resolução n.º 856/XVII/1.ª
Pela defesa de uma solução diplomática para o confronto entre os Estados
Unidos da América e a República de Cuba
Exposição de Motivos
Há largas décadas que o povo cubano vive subjugado por um regime ditatorial, que tem
limitado fortemente os seus direitos, bem como as liberdade políticas, de expressão e
de associação. A repressão em Cuba tem levado à sua péssima classificação em vários
relatórios e rankings referentes a liberdades sociais e políticas. No mais recente relatório
do Instituto V-Dem, intitulado ‘’Unraveling The Democratic Era?’’, Cuba foi classificada
como um regime de autocracia fechada, figurando em 161º lugar em 179 países no seu
índice de democracia liberal 1. No índice da democracia global, da Freedom House, o
panorama é igualmente preocupante. Cuba apresenta apenas nove pontos em 100,
tendo zero pontos em 11 variáveis diferentes referentes a direitos políticos2.
Apesar do regime não ter mudado desde que foi instaurada uma ditadura comunista
nos anos 60, após a revolução cubana que pôs fim à ditadura militar de Fulgencio Batista,
este tem sido alvo constante de ingerências externas. Em 1961, pouco tempo depois da
consolidação da revolução em Cuba, os Estados Unidos da América apoiaram um golpe
de estado, a invasão da Baía dos Porcos que teria como objetivo depor Fidel Castro e
mudar o regime deste país. Desde então que Cuba tem estado debaixo de um violento
embargo que para além de prejudicar financeiramente o país, tem grandemente
dificultado a sua independência económica e emancipação social dos seus cidadãos,
ficando extremamente dependentes de auxílio e financiamento externo. Em 1962, a
crise dos mísseis de Cuba colocou n ovamente este país dos holofotes internacionais,
1 V-DEM Democracy Report 2026
2 Cuba: Freedom in the World 2026 Country Report | Freedom House
tendo este marcado permanentemente o período histórico de tensão entre os Estados
Unidos e a União Soviética durante a Guerra Fria.
A história demonstra -nos que os Estados Unidos da América nunca conviveram bem
com a existência de um regime comunista perto do seu território. Tirando
aligeiramentos pontuais nas sanções, há mais de 60 anos que Cuba se vê impactada pelo
boicote económico promovido pelos Estados Unidos da América, algo que tem
prejudicado grandemente a sua autonomia e independência financeira.
A chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos veio encetar uma nova
realidade na política internacional. A sua invasão à Venezuela e ataques ao Irão, para
além de desestabilizarem as respectiva s regiões, colocaram em causa o princípio de
soberania dos Estados e o respeito pelos seus territórios. Agora, novas ameaças a Cuba
serviram para soar novos alarmes a nível internacional, estado à vista uma possível nova
ingerência externa na política interna de um outro país.
Independentemente de concordarmos ou não com o regime e realidade política de um
determinado país, todo e qualquer Estado deve respeitar o direito internacional e a
Carta da Organização das Nações Unidas, respeitando o princípio da autodeterminação
dos povos expresso no Artigo 1 deste documento. As considerações tornadas públicas
por Donald Trump, que anunciou pretender atacar Cuba num futuro próximo, não só
violam claramente o anteriormente exposto, como aprofundam o sentimento de
insegurança a nível internacional e aumentam o perigo de militarização a nível global.
O PAN é muito claro na sua visão para a política externa. O mundo deve caminhar em
direção a uma solução de paz, com vista à desmilitarização e com respeito pelo direito
internacional e pelos direitos humanos. Promover operações militares e levantar
ameaças a vários países com a leviandade promovida pelo presidente dos EUA não só é
imprudente como cria uma clima de insegurança e de hostilidade entre países. Num
contexto internacional cada vez mais incerto, Portugal e a União Europeia não se podem
demitir de fazerem parte da solução a nível internacional, sob pena de perderem
relevância na política externa e na relação com os países afetados. Portugal deve fazer
parte de uma solução pacífica, incentivar ao diálogo e à resolução de conflitos pela via
diplomática, papel que a Assembleia da República recomendou ao Governo
desempenhar na situação venezuelana e que deve ser seguido também na situação de
Cuba.
Nestes termos, a ab aixo assinada Deputada Única do PESSOAS -ANIMAIS-NATUREZA,
ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, propõe que a
Assembleia da República adopte a seguinte Resolução:
A Assembleia da República, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da
República Portuguesa, resolve recomendar ao Governo que:
1. Promova, a nível internacional e em cooperação com a União Europeia,
conversações com os Estados Unidos da América com vista à cessação das
ameaças levantadas à República de Cuba;
2. No âmbito da relação bilateral entre os Estados Unidos da América e a
República Portuguesa, apele a uma solução de paz e de respeito pela
autonomia e autodeterminação do povo cubano;
3. Em negociação com a União Europeia, Estados Unidos da América e com a
República de Cuba, promova esforço diplomáticos e de incentivo à
democratização do país e de proteção dos direitos humanos;
4. Defenda o fim do embargo económico a Cuba promovido pelos Estados Unidos
da América.
Assembleia da República, Palácio de São Bento, 17 de abril de 2026
A Deputada,
Inês de Sousa Real
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