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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 615/XVII/1.ª
Recomenda ao Governo o reforço da posição diplomática portuguesa a favor do
levantamento do bloqueio económico, comercial e financeiro a Cuba e da defesa
do Direito Internacional
Exposição de Motivos
A situação política e socioeconómica na República de Cuba atravessa um momento de
particular gravidade, exacerbado por um conjunto de decisões recentes por parte do
Governo dos Estados Unidos da América que agravaram o regime de sanções vigente há
mais de seis décadas.
Em janeiro de 2026, a administração norte-americana assinou uma ordem executiva que
impõe tarifas adicionais a qualquer país que forneça petróleo à ilha, visando interromper
o fluxo de energia essencial para a manutenção das infraestruturas básicas do país. Esta
medida seguiu-se à operação militar de captura de Nicolás Maduro em território
venezuelano, o que resultou no controlo das exportações petrolíferas daquele que era o
principal fornecedor de Cuba.
O impacto destas ações foi imediato, levando o Secretário-Geral das Nações Unidas e o
Alto Comissariado para os Direitos Humanos a alertarem para um iminente colapso
humanitário, caracterizado pela escassez crítica de combustível, cortes de energia
generalizados e o comprometimento de serviços essenciais como o fornecimento de água
potável, saneamento e o funcionamento de unidades hospitalares.
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A comunidade internacional tem manifestado, de forma reiterada e quase unânime, a sua
oposição a este bloqueio – agora agravado. Há 23 anos consecutivos que a Assembleia
Geral das Nações Unidas aprova resoluções que apelam ao fim do embargo económico,
comercial e financeiro, considerando que estas medidas unilaterais violam os princípios
da Carta das Nações Unidas e as normas do direito internacional, nomeadamente no que
diz respeito à igualdade soberana dos Estados e à não ingerência em assuntos internos.
Especialistas em direitos humanos da ONU sublinharam recentemente que os objetivos
políticos não podem justificar ações que resultem em violações sistemáticas dos direitos
humanos da população civil, submetendo milhões de pessoas a privações extremas.
A esta crise energética somam-se os efeitos devastadores de catástrofes naturais, como a
passagem do furacão Melissa em outubro de 2025, que destruiu dezenas de milhares de
habitações e agravou a insegurança alimentar, num contexto em que a assistência
humanitária internacional se vê dificultada pelas sanções e pela falta de combustível para
transporte.
Portugal mantém relações diplomáticas e económicas históricas com Cuba,
fundamentadas em acordos comerciais de longo prazo, como o estabelecido pelo Decreto
n.º 35/77 de 11 de março, que visava o desenvolvimento harmonioso das trocas entre
ambos os Estados num espírito de igualdade e vantagens recíprocas. A atual escalada das
sanções norte-americanas tem tido um impacto direto e prejudicial também nos
interesses económicos nacionais. O Grupo Vila Galé, o único operador hoteleiro português
presente na ilha, viu-se forçado a encerrar temporariamente unidades hoteleiras devido
à imprevisibilidade do cenário energético e à suspensão das operações de voos charter
provenientes de mercados emissores cruciais, como o canadiano.
A escassez de combustível de aviação levou também ao cancelamento de operações
charter programadas a partir de Lisboa por grupos como a Ávoris, afetando o fluxo
turístico e a viabilidade de investimentos portugueses significativos no setor. A economia
portuguesa, que tem exportado tradicionalmente produtos farmacêuticos, moldes para a
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indústria de plásticos, papel, cartão e equipamentos diversos, encontra-se assim perante
uma barreira crescente que limita o potencial de crescimento comercial e prejudica a
atividade das 64 empresas nacionais que operavam neste mercado.
A defesa do levantamento do bloqueio por parte do Estado português fundamenta-se
estritamente no respeito pelo direito internacional, não implicando, de forma alguma, a
subscrição ou anuência ao modelo político vigente em Havana ou a complacência com
violações de direitos fundamentais. Pelo contrário, a afirmação de uma posição
diplomática baseada na legalidade internacional deve ser acompanhada pela exigência do
respeito integral pelas liberdades cívicas.
Nesse sentido, e em alinhamento com os relatórios da Amnistia Internacional, é
imperativo que o diálogo diplomático exorte o governo cubano à libertação imediata e
incondicional de todas as pessoas detidas por motivos políticos, garantindo que o direito
ao protesto pacífico e à liberdade de expressão não resulte em perseguições judiciais ou
detenções arbitrárias.
O Governo português, no quadro da sua política externa e da sua participação em
instâncias multilaterais, deve persistir na via do diálogo e da cooperação, instando ao fim
de medidas que violam a ordem jurídica internacional e que penalizam injustamente e
forma gravosa os cidadãos cubanos comuns, mas também afetam os operadores
económicos portugueses.
Ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação
Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo:
1. Reforce a posição diplomática de Portugal nas instâncias internacionais,
nomeadamente na Organização das Nações Unidas e na União Europeia, a favor do
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levantamento imediato do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos
Estados Unidos da América contra Cuba;
2. Apoie o povo cubano promovendo, no quadro das Nações Unidas e da União Europeia,
a assistência humanitária necessária para mitigar os efeitos da crise energética e
alimentar e o diálogo institucional com o Governo de Cuba, instando à libertação de todos
os cidadãos presos por motivos políticos.
Assembleia da República, 18 de janeiro de 2026.
O Deputado
Fabian Figueiredo
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