Projeto de Resolução n.º 697/XVII/1.ª
Recomenda a inclusão do gado asinino no Programa de Apoio à
Redução da Carga Combustível Através do Pastoreio
Exposição de motivos:
A utilização de animais para controlo do risco de incêndios, nomeadamente através do
pastoreio dirigido, constitui uma ferramenta eficaz e sustentável na gestão da vegetação e na
redução da carga de combustível em áreas rurais e florestais. Trata -se de uma prática que
aproveita o comportamento natural dos animais para manter a biomassa sob controlo, criando
zonas de descontinuidade vegetal que limitam a propagação do fogo e diminuem a
necessidade de intervenções mecânicas ou químicas, ao mesmo tempo que os animais
transformam e nutrem o solo.
A realidade é que, com o aumento progressivo do risco de grandes incêndios rurais e um
controlo cada vez mais apertado sobre o uso do fogo, a função dos animais na gestão de
combustíveis ganha mais relevância como alternativa ou complemento a queimas e
operações mecânicas. Para além dos benefícios ecológicos, o pastoreio contribui para a
valorização das raças autóctones, o apoio à economia rural e a preservação de práticas
tradicionais que reforçam a ligação entre comunidades locais e o seu território. A in tegração
mais sistemática de animais nas estratégias de ordenamento do território e prevenção de
incêndios permite ainda conciliar objetivos de segurança, conservação da biodiversidade e
desenvolvimento sustentável, reforçando a resiliência das paisagens face aos incêndios
extremos.
O conceito de “cabras sapadoras”, por exemplo, é cientificamente válido e usado em França
pelo menos desde os anos 80 1. Em Portugal, começou a ser testado formalmente através de
uma iniciativa do Governo em 2018, após os grandes incêndios da zona Centro do ano
anterior, com o lançamento, pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I.P.,
e financiamento pelo Fundo Florestal Permanente, de um procedimento concursal para a
realização de ações de gestão de combustível com recurso a pastorícia como complemento
do Programa Gestão de Combustíveis, consistindo num projeto -piloto a que se chamou
«Cabras Sapadoras» 2.
1 Programa das cabras sapadoras não convenceu pastores tradicionais, diz antropólogo | Público
2 Despacho n.º 5260/2018, de 25 de maio | DR
No entanto, os dados demonstram que este programa teve uma adesão relativamente
reduzida, não tendo convencido muitos pastores tradicionais 3. Os resultados de uma tese de
Doutoramento 4 sobre o tema indicam que o desenho do programa ignorou a complexidade
dos sistemas agropastoris, as rotinas e saberes locais, e que os incentivos económicos e
regras de gestão não foram ajustados à realidade dos pastores. O autor sublinhou ainda que
a burocracia, a forma como o trabalho era remunerado e organizado e a pouca participação
dos próprios pastores no desenho das medidas ajudaram a afastar quem já praticava
pastoreio, limitando o potencial do programa como ferramenta de prevenção de incêndios.
Também em 2019, um projeto europeu juntou parceiros de Portugal, Espanha e França para
recuperar práticas tradicionais de pastoreio como forma de prevenir incêndios florestais e
valorizar a pecuária extensiva. Em Mirandela, por exemplo, combinou ‑se limpeza mecânica
e fogo controlado com o pastoreio de ovinos e equinos, utilizando ovelhas Churra Galega
Bragançana. Os animais eram então monitorizados por GPS para estudar a ocupação do
terreno e demonstrar de que forma estes sistemas reduzem o risco de fogos, melhoram a
biodiversidade e podem ser replicados noutros territórios rurais 5.
Já em 2026, o Governo lançou um programa de apoio ao pastoreio extensivo, com uma
dotação que pode atingir 30 milhões de euros por ano, financiados pelo Fundo Ambiental,
também com o objetivo de reduzir o risco de incêndios rurais através da diminuição da carga
de combustível 6.
O programa foi apresentado como assente em dois eixos principais: o apoio às áreas de
baldio, através de pagamentos por hectare gerido, numa dotação anual de 7,5 milhões de
euros, e o apoio aos animais utilizados na gestão da carga de combustível, com uma dotação
de 15 milhões de euros, com valores diferenciados por espécie, incluindo montantes
específicos por vaca de aleitamento, ovelha ou cabra. Estes instrumentos foram
concretizados na Portaria n.º 79/2026/1, de 13 de fevereiro, que estabelece o regime d e
aplicação no território continental das medidas «Apoio às áreas de baldio» e «Apoio aos
animais para gestão da carga combustível», cujas candidaturas abriram no passado dia 16
de fevereiro 7. No entanto, o regime contempla apenas efetivos de gado bovino, ovino e
caprino.
Ora, existe já evidência que demonstra que a utilização de equídeos, em particular de
asininos, como o burro de Miranda, é altamente eficaz na redução da biomassa combustível
em áreas de difícil acesso, onde ruminantes apresentam limitações operacionais. Aliás,
projetos como o ASINIFIRE - Asininos na Prevenção de Incêndios para a Resiliência
Ecológica 8 comprovam esta capacidade, promovendo simultaneamente a conservação de
raças autóctones, a biodiversidade e novas oportunidades económicas em territórios rurais
de baixa densidade.
3 Programa das cabras sapadoras não convenceu pastores tradicionais, diz antropólogo | Público
4 Rego, J. S. (2021). " De sol a sol": dois estudos pastoris de prevenção de incêndios rurais [Tese de doutoramento, Iscte -
Instituto Universitário de Lisboa]
5 Projeto europeu recupera práticas tradicionais de pastoreio para prevenir fogos | Expresso
6 Governo investe 30 milhões de euros em pastoreio extensivo para reduzir risco de incêndios | SIC Notícias
7 Governo cria apoio ao pastoreio extensivo para reduzir risco de incêndios rurais | XXV Governo Constitucional
8 Asininos na Prevenção de Incêndios para a Resiliência Ecológica | AEPGA
Já em 2023, a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA) utilizava
burros de Miranda do Douro em projetos -piloto no Planalto Mirandês para limpar lameiros
abandonados e matos, reduzindo a carga combustível e criando faixas corta -fogo natur ais
contra incêndios rurais 9. Neste projeto, os animais monitorizados consumiam vegetação
densa em terrenos de difícil acesso, onde máquinas são menos eficazes, preservando solos
com menor erosão e compactação.
Deste modo, entende o LIVRE que é necessário garantir a inclusão destes animais no âmbito
da Portaria n.º 79/2026/1, de 13 de fevereiro, e do programa de apoio ao pastoreio extensivo,
ampliando o leque de espécies elegíveis, de forma a maximizar a eficácia da medida. A
exclusão destes animais compromete a plena eficácia da medida e ignora contributos
estratégicos já validados para uma gestão mais integrada e resiliente do território.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Inclua os equídeos, em particular o gado asinino, entre as espécies elegíveis no
âmbito do Programa de Apoio à Redução da Carga Combustível através do Pastoreio
Extensivo, nomeadamente nas medidas a que se refere a Portaria n.º 79/2026/1, de
13 de fevereiro;
2. Crie uma linha específica de apoio à utilização de asininos na gestão do território em
áreas rurais de risco elevado de incêndio que financie ações de pastoreio extensivo,
tração animal e iniciativas de sensibilização junto das comunidades locais.
Assembleia da República, 12 de março de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Paulo Muacho Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Rui Tavares Tomás Cardoso Pereira
9 Burros de Miranda limpam terrenos para baixar risco de incêndio | Jornal de Notícias
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