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Representação Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 467/XVII/1.ª
Pela reintegração do Internato Médico como categoria de ingresso na
Carreira Médica
Exposição de motivos
A implantação de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) em Portugal, associada ao acesso
gratuito à educação, ao trabalho com direitos e ao direito a proteção social, foi uma das
conquistas do 25 de abril. O SNS é um pilar fundamental de democratização do país,
mobilidade social e redução de desigualdades e permitiu quebrar o ciclo da doença
tipicamente associado à pobreza.
Atualmente, o Serviço Nacional de Saúde tem óbvias dificuldades de captação e fixação de
profissionais de saúde, em particular trabalhadores médicos, mas não só. Essas
dificuldades têm ficado expostas nos concursos que ficam vazios, na dificuldade em
garantir escalas para pleno funcionamento de serviços hospitalares, no aumento brutal
de utentes sem médico de família ou nos inadmissíveis tempos de espera para consultas
e cirurgias.
Ao mesmo tempo que o número de pessoas sem médico de família mais do que duplicou
- de 655 mil em outubro de 2019 para mais de 1,5 milhões no final de 2024 – os concursos
para contratação de especialistas em medicina geral e familiar têm ficado crescentemente
desertos. O último concurso para recém-especialistas terminou com cerca de 70% das
vagas por preencher e atirou para fora do SNS centenas de médicos.
O mesmo acontece nas especialidades hospitalares. Ao mesmo tempo que os hospitais não
conseguem garantir o pleno funcionamento de serviços, desde urgências até
internamento, por falta de profissionais para o preenchimento de escalas, as vagas para
contratação ficam desertas, algo que parece ser promovido pelo próprio Governo quando
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decidiu atrasar em meses a abertura de concursos e quando decidiu nada fazer para
aumentar a atratividade do SNS.
Um dos problemas essenciais com que o SNS se debate atualmente é a destruição das
carreiras médicas que levou à saída de médicos experientes do SNS para o privado ou para
a reforma, situação que necessita de intervenção urgente, sob pena de se comprometer,
irremediavelmente, a capacidade formativa do SNS. De facto, não há internos a mais, há
formadores a menos, da mesma forma que não há médicos a mais, há falta de médicos no
SNS.
Perante este cenário são necessárias medidas verdadeiramente estruturais e que
permitam a fixação de profissionais no Serviço Nacional de Saúde. O recurso ao setor
privado e a prestadores de serviço não é solução, porque só desvia dinheiro do SNS
tornando-o mais frágil e mais suborçamentado e endividado.
A solução passa pela melhoria das carreiras dos profissionais, que permita a fixação de
mais trabalhadores no SNS, nomeadamente no que diz respeito ao internato médico que
deve voltar a figurar como uma categoria da carreira médica, como já aconteceu no
passado e como tem vindo a ser reivindicado ao longos dos anos pelos sindicatos e outras
estruturas representativas do setor.
Os médicos internos são atualmente uma parte importante da força de trabalho do SNS. O
funcionamento das Unidades Locais de Saúde, particularmente daquelas mais deficitárias
em profissionais, depende destes trabalhadores. No entanto, devido aos níveis
remuneratórios insuficientes e às condições de trabalho desadequada, estes
trabalhadores de um modo geral não se fixam no SNS quando terminam o internato e
menos ainda quando terminam o internato de especialidade.
Ao longo destes anos, o SNS cresceu, complexificou-se e qualificou-se. Existem agora mais
hospitais, mais unidades de cuidados de saúde primários, mais cuidados diferenciados,
mais profissionais e profissionais mais qualificados, mas é necessário dar condições aos
profissionais de saúde, e in casu aos médicos, para que se fixem no SNS e isso passa por
defender a formação médica de qualidade e valorização destes profissionais também no
início da sua carreira.
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Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, a Representação
Parlamentar do Bloco de Esquerda propõe que a Assembleia da República recomende ao
Governo que:
1 - Em articulação com as organizações representativas do setor, reintegre o
internato médico como categoria de ingresso na Carreira Médica;
2 - Tome medidas para promover a fixação dos médicos recém-licenciados no Serviço
Nacional de Saúde, evitando a desvinculação precoce destes profissionais e promovendo
a sua formação específica.
Assembleia da República, 2 de janeiro de 2026.
O Deputado do Bloco de Esquerda,
Fabian Figueiredo
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