PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS
Grupo Parlamentar
Projeto de Resolução n.º 334/XVII/1.ª
Avaliação, valorização e defesa da TAP no contexto da economia nacional
Exposição de motivos
O atual Governo, com o apoio das restantes forças neoliberais na Assembleia da
República, o PS, a IL e o CH, colocou a TAP novamente em processo de privatização.
Uma privatização para levar até aos 100%, como já o deixou claro o Primeiro-
Ministro, apesar de tantos fingirem acreditar que o processo apenas privatiza 49,9%
do capital.
Uma das questões centrais do atual processo é qual o valor da TAP. Não por
acaso, o atual Governo tem escondido sistematicamente as avaliações realizadas à
companhia, pagando-as com o dinheiro de todos os portugueses, intoxicando os
portugueses com os seus resultados, mas negando o acesso às mesmas para que não
possam ser contraditadas. A Assembleia da República já solicitou as avaliações
realizadas em 2023 e 2024, e ambas lhe foram negadas.
Ninguém tem dúvidas que, para um capitalista, uma empresa vale a capacidade
que tem de lhe gerar lucros: seja na sua operação, seja na operação de outras
empresas onde esse capitalista já detenha posição, seja pela liquidação do seu ativo.
Basicamente, o que todos os neoliberais têm defendido é que a TAP seja avaliada pela
sua capacidade de gerar lucros a um futuro comprador. Com esse argumentário,
pretende-se ignorar um facto incontornável: ao longo de todo o processo de
privatizações, os “investidores” ficaram ricos a comprar empresas públicas – o Estado
é que ficou mais pobre.
Para o Estado português, para Portugal, a TAP cria muito mais riqueza do que os
lucros que tenha (e tem tido). Para as forças neoliberais é exatamente a mesma coisa
ser a TAP ou a Ryanair a realizar uma determinada rota (aliás, conforme tem sido
reiteradamente afirmado pela IL). O facto, que ficou demonstrado na CPI à gestão
política da TAP, desta ser responsável em 10 anos por 1,4 mil milhões de euros em
contribuições à Segurança Social portuguesa, enquanto a Ryanair deixou 40 milhões,
é indiferente para essas forças neoliberais – mas não é nem pode ser indiferente para
quem vive e trabalha em Portugal e pretenda continuar a fazê-lo. É este tipo de
realidade económica que as ditas avaliações da TAP nunca têm em conta.
Essas forças neoliberais repetem a necessidade de o povo português recuperar
os 3,2 mil milhões que colocou na TAP – ao mesmo tempo que nada dizem ou
disseram sobre a necessidade de o Estado português recuperar os seis mil milhões
colocados no Novo Banco/BES, ou os 20 mil milhões colocados na banca privada nos
últimos 20 anos. Essas forças falam dos 3,2 mil milhões, fingindo ignorar como esse
valor foi criado (tal como a CPI da TAP apurou): mil milhões para pagar a aventura da
Manutenção Brasil (imposta à TAP pelo PS e PSD, onde a IL e o CH residiam na altura);
600 milhões para ajudar a superar os prejuízos provocados pela crise da pandemia de
COVID-19 em todas as empresas de aviação do mundo; 600 milhões para tapar os
prejuízos criados na empresa pelos dois processos de privatização; e mil milhões de
capitalização.
Ora, mais uma vez, esta visão distorce a realidade. O Estado português gastou
3,2 mil milhões de euros para salvar a TAP da falência (estava a TAP privatizada,
recorde-se). Em três anos, esta gerou mais de 270 milhões de euros de lucros, pagou
mais de 300 milhões à Segurança Social portuguesa, pagou mais de 300 milhões de
IRS, pagou cerca de 2,2 mil milhões de euros em salários em Portugal, que por sua vez
alimentaram a economia local e nacional.
Nesse contexto, a TAP foi o maior exportador nacional de serviços, um dos
maiores exportadores brutos, e evitou um volume gigantesco de importações.
Contribui para cerca de 4% do PIB nacional. Enquanto empresa pública e nacional, a
TAP gera uma riqueza imensa para o país. E ainda se colocam as restantes dimensões
estratégicas e de soberania que podem ser mais difíceis de medir, mas não podem
deixar de ser avaliadas. E temos o facto da TAP ser uma das últimas grandes empresas
nacionais, com o que isso significa também do ponto de vista económico.
Apesar de não termos igualmente qualquer dúvida que a TAP podia ser mais
bem gerida, e servir melhor o interesse nacional, também não temos que ela é um
fator positivo para a economia nacional que importa preservar, e que só será
preservado se se evitar a privatização. Todos os processos de privatização já
concluídos (Swissair e Atlantic Gateway/D. Neeleman) terminaram com a falência da
TAP e a necessidade de a resgatar ou deixar desaparecer.
O atual processo de privatização está já a trazer enormes prejuízos à TAP.
Nomeadamente, todas as suas principais concorrentes têm hoje acesso a toda a
informação comercial da empresa, com os impactos evidentes para a operação da
TAP. Curiosamente, essa mesma informação não é divulgada aos deputados da
Assembleia da República por causa... do segredo comercial.
Assim, face ao exposto e ao abrigo da alínea b) do artigo 156.º da Constituição e
da alínea b) do n.º 1 do artigo 4.º do Regimento, os Deputados do Grupo Parlamentar
do PCP propõem que a Assembleia da República adote a seguinte resolução:
Resolução
Nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, a Assembleia da República
recomenda ao Governo que:
1. Entregue imediatamente à Assembleia da República os relatórios de avaliação
da TAP realizados em 2023 e 2024;
2. Realize, e entregue à Assembleia da República, um relatório de avaliação do
conjunto dos impactos económicos da TAP na economia portuguesa e no
Orçamento de Estado, onde seja possível apurar o verdadeiro contributo da
empresa para a economia nacional e o Orçamento do Estado;
3. Detenha o processo de privatização da TAP.
Assembleia da República, 10 de outubro de 2025
Os Deputados,
PAULA SANTOS; PAULO RAIMUNDO; ALFREDO MAIA
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