Projeto de Resolução n.º 545/XVII/1.ª
Recomenda a inventariação do edificado público para
aproveitamento de energia solar fotovoltaica
Exposição de motivos:
A descentralização da produção de energia, particularmente a solar fotovoltaica, é
fundamental para a transição para um sistema energético mais sustentável, resiliente e
democrático. A ideia de distribuir a geração elétrica por múltiplas unidades de pequen a ou
média dimensão, próximas dos locais de consumo, em vez de depender de grandes centrais,
não é nova e é, aliás, a base das comunidades de energia renovável e do autoconsumo
coletivo.
O Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) 2030 estabelece como metaalcançar, até 2030,
uma capacidade instalada de 20,8 GW de energia solar fotovoltaica 1, dos quais 15,1 GW
deverão corresponder a produção centralizada (gerada em grandes centrais elétricas
afastadas dos utilizadores finais) e 5,7 GW a produção descentralizada (gerada por sistemas
fotovoltaicos instalados em edifícios residenciais, comerciais e industriais e consumida
localmente ou próximo da área de produção).
A dispersão na produção reduz as perdas de energia associadas ao transporte, aumenta a
eficiência global do sistema e diminui a vulnerabilidade a falhas técnicas ou a crises externas.
Além disso, equipar coberturas ou superfícies já existentes com painéis solares e transformá-
las em elementos centrais das comunidades de energia renovável, quando dota das dos
equipamentos necessários para garantir a sua autonomia e funcionamento, contribui para
aliviar a pressão sobre o sistema elétrico, sobretudo em situações de grande escala, como
se verificou no apagão de 28 de abril de 2025.
Este é um pressuposto es sencial num país como Portugal, que está especialmente bem
posicionado para apostar neste modelo graças ao elevado número de horas de sol de que
dispõe.
Mas sucede que a expansão da instalação de painéis fotovoltaicos em Portugal tem gerado
vários conflitos, em particular ligados à localização e à escala dos projetos. Em várias regiões
do país, como em Castelo Branco2, Évora, Arraiolos3, Grândola, Alcácer do Sal4, entre outras,
1 Plano Nacional de Energia e Clima 2030 (pág. 61)
2 Mega centrais solares: população de Castelo Branco preocupada com impacto ambiental| SIC Notícias
3 Apresentado novo projecto de megacentral solar perto de Évora. Já é o terceiro | Público
4 Central solar gigantesca pode ser instalada em Rede Natura 2000 na Comporta | Público
movimentos cívicos, autarquias e associações ambientalistas têm contestado as
“megacentrais solares”, argumentando que ocupam áreas muito extensas, com forte valor
paisagístico, ecológico ou turístico e provocam a artificialização excessiva do solo.
Estes projetos semeiam a perceção de que os benefícios económicos não são justamente
partilhados com as comunidades que acolhem as infraestruturas, o que acaba por gerar
tensão entre os promotores e as populações e autarquias. Tudo isto contribui -
compreensivelmente - para um clima de desconfiança em relação à transição energética e
cria resistência social à expansão das energias renováveis.
Ora, isto não tem nem deve ser assim. Um estudo divulgado recentemente demonstrou que
Portugal continental tem muito mais território adequado à energia solar do que o necessário
para cumprir as metas até 2030 sem aumentar os conflitos com a natureza ou com as
populações. A realidade é que parece haver mais de cinco vezes a área necessária em zonas
de baixo conflito disponíveis5, o que demonstra que, no caso concreto de Portugal, é possível
atingir os objetivos de energia solar descentralizada privilegiando áreas já artificializadas ou
de menor sensibilidade ecológica, se houver bom planeamento e critérios de escolha
rigorosos.
Paralelamente, um estudo realizado pelo Laboratório Nacional de Energia e Geologia em
2023 debruçou-se, entre outras coisas, no potencial de instalação de energia solar
descentralizada em áreas artificializadas, tendo dividido estas em seis tipos6:
1) áreas industriais,
2) edifícios comerciais,
3) prédios residenciais e de uso misto,
4) vivendas,
5) edifícios de saúde, ensino, culturais, turístico e militares, e
6) outros usos do solo.
Este estudo revelou que o potencial técnico de instalação perfaz 23,33 GW de produção de
energia solar fotovoltaica - mais do que a meta para 2030 definida no PNEC 2030. No entanto,
destes 23,33 GW, apenas 2,15 GW correspondem à tipologia “Edifícios de saúde, ensino,
culturais, turístico e militares”7, o que corresponde a quase metade da meta para a produção
solar descentralizada.
Entre todos os edifícios que pertencem ao Estado e que prestam serviços públicos contam-
se escolas, hospitais, quartéis, tribunais, bibliotecas, edifícios administrativos, entre tantos
outros.
5 Guia Smart Siting: Portugal - Balancing energy, conservation, and community priorities in developing ground-mounted solar
and onshore wind on low conflict sites | The Nature Conservancy
6 Estimativa de potenciais técnicos de energia renovável em Portugal: eólico, solar fotovoltaico, solar concentrado, biomassa e
oceanos (pág. 37) | LNEG
7 Estimativa de potenciais técnicos de energia renovável em Portugal: eólico, solar fotovoltaico, solar concentrado, biomassa e
oceanos (pág. 42) | LNEG
Em 2024, os dados indicavam que o Estado detém 17.445 prédios urbanos cadastrados na
Autoridade Tributária, a grande maioria dos quais está afeta a habitação (9989), a que se
seguem serviços (4506)8.
Em teoria, em qualquer um deles se podem instalar infraestruturas deste tipo, de forma a dar
o exemplo, incentivar uma adoção mais generalizada de produção descentralizada e ainda
reduzir os custos energéticos do setor público. Tal transformaria o património público num
ativo também energético e demonstraria, na prática, que é possível começar pelo edificado
público, impulsionando a criação de comunidades de energia renovável. Além de reforçar a
resiliência do sistema elétrico, esta iniciativa permitiria uma maior proximidade entre produção
e consumo, em que as instituições, autarquias e cidadãos partilhariam os benefícios
económicos e ambientais, consolidando o papel do Estado como agente impulsionador da
transição energética em Portugal.
Ainda assim, e porque há alguns motivos que podem limitar a instalação de painéis solares
em determinados edifícios públicos, de questões estruturais, como telhados antigos ou
frágeis, até restrições urbanísticas e patrimoniais que protegem edifícios históricos, falta de
espaço, até exposição solar adequada, entre outros, torna-se essencial realizar um inventário
detalhado do parque imobiliário público, identificando que edifícios reúnem as condições
ideais para integrar sistemas fotovoltaicos e priorizando as intervenções com maior impacto
energético e ambiental.
É, por isso, no entender do LIVRE necessário que o Governo proceda ao levantamento
detalhado e extensivo de todos os edifícios públicos, identificando quais dispõem de
condições estruturais, técnicas e de exposição solar adequadas à instalação de sistemas
fotovoltaicos. O inventário deve incluir informações sobre o estado das coberturas, eventuais
limitações urbanísticas, consumo energético e proximidade à rede elétrica, bem como uma
estimativa sobre o potencial de geração fotovoltaica.
A presente iniciativa está, aliás, na linha da iniciativa que o LIVRE apresentou e que
recomendava a criação do Programa “Escolas Solares”9 e que acabou incompreensivelmente
rejeitada no Parlamento.
Por fim, importa ressalvar que o LIVRE registou a intenção do Governo de lançar, a breve
trecho, um programa de incentivo à aquisição e instalação pelas famílias de painéis solares10.
Esta medida, apesar de apontar na direção certa da descentralização da produção - e tendo
em conta a pouca informação que já foi tornada pública sobre a mesma -, parece limitar-se
ao apoio ao autoconsumo individual, sem contemplar a possibilidade de autoconsumo
coletivo ou de injeção dos excedentes na rede elétrica. Assim, a energia produzida e não
consumida em tempo real acaba, na prática, por ser desperdiçada, reduzindo a eficiência
energética e o impacto da medida. Ao restringir-se a sistemas de pequena escala que
funcionam de forma isolada, o programa afasta-se do potencial transformador de verdadeiras
comunidades de energia renovável. Ignorar a dimensão cooperativa e partilhada mantém uma
lógica individualista e fragmentada da produção, sem criar laços de cooperação nem
estruturas de gestão partilhada entre cidadãos, autarquias e empresas locais.
8 Estado tem 43 mil prédios rústicos e 17.500 urbanos inscritos na AT | Idealista
9 Projeto de Resolução 211/XVII/1 - Recomenda a criação do Programa “Escolas Solares
10 Governo vai lançar novo apoio à aquisição de painéis solares para famílias | RTP
Tal pode reduzir significativamente o impacto transformador do programa, uma vez que, em
vez de redes locais de energia interligadas e inclusivas, corre-se o risco de multiplicar
centenas de microinstalações pouco ou nada articuladas entre si, que servem apenas cada
casa, multiplicando custos que poderiam ser partilhados. As comunidades de energia, tal
como a lei as define, vão muito além disso: geram benefícios coletivos, promovem a inclusão
social, criam emprego local e permitem que todos (inclusivamente quem não tem meios
financeiros para investir em painéis solares) possam participar e beneficiar do processo da
transição energética.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Instrua a Estamo - Participações Imobiliárias, S.A. para que, em articulação com as
autarquias locais, realize um inventário nacional detalhado do património público com
potencial solar, identificando, caracterizando e classificando todos os edifícios do
Estado que possam receber painéis fotovoltaicos, incluindo uma estimativa do
potencial de geração de energia solar fotovoltaica.
2. Defina, com base no inventário a que se refere o número anterior, um plano faseado
de investimento, até 2030, para a instalação de painéis solares em edifícios públicos,
começando pelos que apresentem maior impacto energético, integrando-os
preferencialmente em comunidades de energia renovável.
Assembleia da República, 3 de fevereiro de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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