Projeto de Resolução n.º 866/XVII/1.ª
Recomenda a atualização do Conceito Estratégico de Defesa Nacional à
luz da realidade geopolítica atual
Exposição de motivos:
A invasão e ofensiva militar da Rússia na Ucrânia, os ataques desproporcionais de Israel,
coadjuvados pelos Estados Unidos da América, contra Gaza e a Cisjordânia, o Irão ou o
Líbano, e a incerteza do compromisso da Administração Trump com a NATO e com a defesa
coletiva europeia, colocam a Europa perante um novo paradigma estratégico que exige uma
resposta urgente e coordenada.
Paralelamente, a natureza dos conflitos tem vindo a transformar-se significativamente, com o
surgimento e preponderância de ameaças híbridas, que vão desde ciberataques, campanhas
de desinformação, interferências com drones a ataques a infraestruturas crít icas, cuja
complexidade e impacto regular de desestabilização tem erodido progressivamente as regras
dos conflitos e as relações diplomáticas, agravando a vulnerabilidade dos Estados e impondo
a necessidade de um novo equilíbrio estratégico, assente na defesa de uma Europa resiliente,
autónoma e interoperável.
Neste mesmo sentido, em março de 2025, a Comissão Europeia, através do Plano Rearmar
a Europa (ReArm Europe Plan)1 e do Livro Branco sobre a Defesa Europeia - Prontidão 20302,
sublinha a necessidade de reduzir dependências militares face a países terceiros e de
aumentar a interoperabilidade entre as forças armadas dos Estados-Membros. Não obstante,
é essencial reconhecer que os desafios de segurança e de defesa extravasam o do mínio
estritamente militar, sendo essencial salvaguardar e robustecer, designadamente, a
segurança ambiental, a segurança alimentar ou a proteção de infraestruturas críticas, pelo
1 Defesa: como a UE está a reforçar a sua segurança | Temas | Parlamento Europeu
2 Futuro da defesa europeia - Comissão Europeia
que o investimento em equipamentos de uso dual é igualmente indispensável para uma
estratégia de defesa integrada.
Mais, no atual cenário geopolítico, importa igualmente preparar a população civil para
eventuais crises prolongadas, sejam elas provocadas por fenómenos climáticos extremos ou
por ataques híbridos. Exemplos como o da Suécia que, em 2024, distribuiu um folh eto por
todos os agregados familiares sobre como preparar-se para situações de crise ou de guerra,
ou da Finlândia, que publicou novas orientações de preparação para emergências, incluindo
cortes prolongados de eletricidade, perturbações nas telecomunicações e conflitos militares3,
denotam que já não estamos num cenário hipotético de crise multidimensional mas antes
numa nova era do que é, e deve ser, a defesa nacional. Nesse mesmo sentido, aliás, a própria
Comissão Europeia recomendou, em março de 2025, a uniformização de kits de
sobrevivência entre os Estados-Membros.4
Assim, a questão da autonomia estratégica europeia convoca igualmente para debate a
criação de uma Comunidade de Defesa Europeia, projeto inicialmente lançado nos anos 50
que propunha um exército europeu integrado e um orçamento comum, mas que nunca
avançou, dada a vontade da Europa em abordar as questões de defesa no quadro
geoestratégico da NATO. Como referido, o contexto geopolítico atual renova esta discussão,
tendo o próprio Comissário Europeu para a Defesa e Espaço, Andrius Kubilius, defendido a
criação de uma “verdadeira união de defesa europeia” e a criação de um Conselho de
Segurança Europeu durante uma audição na Assembleia da República, realizada no passado
dia 8 de janeiro5.
Em face do exposto, e considerando que o Conceito Estratégico de Defesa Nacional em vigor
data de 2013 6 e ainda incorpora o enquadramento do Conceito Estratégico da NATO,
aprovado na Cimeira de Lisboa de 2010, que defendia o aprofundamento das relações com
“parceiros estratégicos, incluindo a UE e a Rússia” 7, é inquestionável a sua necessidade de
revisão, nomeadamente redefinindo o papel que Portugal deve promover no contexto da sua
participação na NATO e no reforço das alianças estratégicas europeias e internacionais.
3 Países nórdicos lançam panfletos sobre a guerra – Observador
4 União da Preparação: nova estratégia europeia de prevenção e reação a ameaças e crises emergentes
5 ARTV :: Comissão de Assuntos Europeus
6 Resolução do Conselho de Ministros n.º 19/2013, de 5 de abril | DR
7https://www.defesa.gov.pt/pt/comunicacao/documentos/Lists/PDEFINTER_DocumentoLookupList/Conceito-Estrategico-de-
Defesa-Nacional.pdf
O LIVRE entende que os desafios atuais que Portugal e a Europa enfrentam, reforçam a
necessidade de adaptação das estruturas, organização e conceção da defesa e segurança
no nosso país, pelo que defende uma atualização urgente do Conceito Estratégico de Defesa
Nacional.
Assim, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo
Parlamentar do LIVRE propõe à Assembleia da República que, através do presente
Projeto de Resolução, delibere recomendar ao Governo que:
1. Proceda, com caráter de urgência, à atualização do Conceito Estratégico de Defesa
Nacional, de forma a refletir o atual contexto geopolítico, incluindo as ameaças
híbridas, a crescente instabilidade internacional e a necessidade de reforço da
autonomia estratégica, resiliência e interoperabilidade de Portugal no quadro europeu
e da NATO.
2. Promova uma abordagem integrada da segurança e defesa, que inclua o reforço da
resiliência civil e das infraestruturas críticas, nomeadamente através de investimento
em capacidades de uso dual, melhoria da interoperabilidade europeia e adoção de
medidas preventivas de proteção da população, como programas de informação e
preparação para crises, incluindo a eventual distribuição de kits de emergência.
Assembleia da República, 17 de abril de 2026
As Deputadas e os Deputados do LIVRE
Isabel Mendes Lopes Filipa Pinto
Jorge Pinto Patrícia Gonçalves
Paulo Muacho Rui Tavares
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